quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A criatura que engoliu Jonas

Por Josivaldo de França Pereira


A criatura que Deus deparou no mar para engolir Jonas (Jn 1.17; 2.1,10) é descrito em nossas bíblias como “grande peixe”; “baleia” e “monstro marinho”. Embora Wiseman seja taxativo em afirmar que baleia não é uma tradução correta[1], essas diferenças entre as versões da Bíblia ocorrem porque a expressão hebraica dag gadol (lit. “peixe grande”) e a palavra grega ketos (cf. Mt 12.40) são termos não mais específicos que as traduções em português. Elas não determinam que tipo de animal está envolvido.[2] Dessa maneira, segundo Desmond Alexander, “Qualquer tentativa de identificar o tipo de peixe é inútil”.[3]
Contudo, não vejo porque o profeta Jonas não possa ter sido engolido por uma baleia, como a baleia-azul, por exemplo. Do tamanho de um Boeing 737 e pesando o mesmo que 25 elefantes juntos, a baleia-azul é o maior animal do planeta. Alguns poderiam objetar alegando que baleia não é peixe, mas um mamífero da ordem dos cetáceos; porém, tal distinção pertence a uma classificação mais recente. Nos tempos bíblicos as palavras “grande peixe”, “baleia” e “monstro marinho” (não necessariamente pré-histórico ou feito apenas para aquela ocasião) são vocábulos genéricos e equivalentes de dag gadol e ketos. Vale destacar que a Bíblia também classifica o morcego como ave (Lv 11.19) e o abutre como águia (Mq 1.16).
Ainda que Jonas tenha sido tragado por um grande monstro marinho como uma baleia, ilustrações para as crianças que mostram o profeta orando ajoelhado dentro do animal devem ser descartadas. Jonas ficou por três dias e três noites deitado, provavelmente preso no esôfago da criatura. A expressão “ventre do peixe” (Jn 1.17; 2.1) não deve ser entendida impreterivelmente como “estômago”, assim como “ventre do abismo” ou “coração dos mares” (Jn 2.2,3) não precisa ser visto como a parte mais profunda de todos os oceanos nas referidas passagens (cf. Mt 12.40 sobre o “coração da terra” para a sepultura de Jesus).
Qual a função do grande peixe que Deus deparou para tragar Jonas? De acordo com Alexander,
Estudos recentes confirmam que o salmo do capítulo 2 [do livro de Jonas] expressa gratidão não pelo livramento de dentro do grande peixe, como muitos comentarias mais antigos supunham, mas, sim, por ter sido salvo do afogamento. O peixe, à semelhança da planta em 4.6, é divinamente preparado para salvar, não para punir. O salmo, portanto, é bastante apropriado em seu presente contexto. De dentro do peixe, Jonas reflete sobre o fato de quase ter morrido afogado e louva a Deus por responder a seu pedido de socorro.[4]
E mais: “Deve-se rejeitar a interpretação alegórica de que Jonas sendo engolido pelo peixe representa Judá sendo levado pelos babilônios para o cativeiro. O peixe é um instrumento de salvação, não de castigo”.[5] Conforme Augustus Nicodemus, “Muitos que leem o livro de Jonas pensam que o peixe é um castigo enviado por Deus ao profeta fujão, mas, pelo contrário, esse animal misterioso é sua salvação. Na barriga do peixe, o profeta ora e adora a seu Senhor”.[6]
A imprecisão das palavras dag gadol e ketos, além da ideia de alguém ser engolido por um peixe e sobreviver dentro dele três dias, tem feito com que muitos leitores modernos se tornem céticos em relação à história de Jonas. Geisler e Howe reafirmam a historicidade do relato de Jonas 2 com o seguinte argumento:
[Em Mateus 12.40] Jesus prevê a sua própria morte e ressurreição, e provê aos incrédulos escribas e fariseus o sinal que eles lhe pediram. O sinal é a experiência de Jonas. Jesus diz: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra”. Se a história da experiência de Jonas no ventre do grande peixe fosse apenas uma ficção, isso não daria respaldo profético algum ao que Jesus declarava.
O motivo de Jesus fazer referência a Jonas era que, se eles não acreditavam na história de Jonas ter estado no ventre do peixe, também não acreditariam na morte, no sepultamento e na ressurreição de Cristo. Para Jesus, o fato histórico de sua própria morte, sepultamento e ressurreição tinha a mesma base histórica de Jonas no ventre do peixe. Rejeitar uma seria o mesmo que rejeitar a outra (cf. Jo 3.12). De igual modo, se cressem numa dessas bases, teriam de crer na outra.[7]
Pobre e coitado da criatura que engoliu Jonas! Comentando o texto de Jonas 2.10, Augustus Nicodemus descreve:
Algo que também nos chama a atenção nessa história é o fato de o peixe vomitar Jonas – que, aliás, devia ser um profeta intragável mesmo. Poucos atentam para a aflição daquele peixe, que por três dias teve de aguentar um homem em seu ventre. Já ouvi muitas pregações sobre Jonas, mas ninguém nunca fala do sofrimento do animal, que passou todo aquele tempo com um profeta indigesto em sua barriga.
Note que o texto não diz “cuspiu” ou “lançou”, mas o verbo foi escolhido justamente para expressar ou a indignação de Deus para com o profeta, ou o modo em que Jonas foi completamente humilhado e quebrantado (talvez até mesmo ambas as coisas!). O profeta saiu daquele peixe todo coberto de vômito, para que com isso Deus pudesse lhe dizer: “É isso que você é. Agora, vamos começar de novo”.[8]
Concluindo: Lembro-me de uma velha história dos tempos de criança contada pelo meu pai. Perguntaram a um crente como ele era capaz de acreditar que um peixe engoliu Jonas. A sábia resposta do homem de Deus veio como um torpedo: “Se a Bíblia dissesse que foi Jonas quem engoliu o grande peixe eu acreditaria”. Retrucou perplexo o interlocutor: “Aí já não seria um milagre, mas uma desgraça!”. Na verdade, para quem crê na Bíblia como a Palavra de Deus em geral, a nossa única regra de fé e prática, e na história de Jonas em particular, nenhuma outra prova é necessária. Para quem não acredita, nenhuma prova é suficiente.




[1] D. J. Wiseman, Peixe, Pesca. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 1255. Veja também J. A. Motyer, Peixe. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 2. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 1631-32.
[2] Nos escritos de Homero (como a Odisseia xii.97), a palavra grega ketos é usada para indicar qualquer peixe grande, incluindo golfinhos e tubarões.
[3] T. Desmond Alexander, et. al, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 126. De acordo com E. S. Kalland (Peixe. In: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 299), "É desconhecida a identidade ou classificação biológica desse grande monstro marinho, pois Jonas não nos oferece detalhes sobre o milagre".
[4] Alexander, p. 76.
[5] Ibidem, nota 1.
[6] Augustus Nicodemus, A Compaixão de Deus: A mensagem de Jonas para a igreja de hoje. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 42.
[7] Norman Geisler; Thomas Howe, Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. 4ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 315-16.
[8] Nicodemus, p. 50-1.

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