quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A serpente de bronze: Símbolo da nossa redenção

(Nm 21.4-9)

Josivaldo de França Pereira

Os israelitas partiram do monte Hor (região de Moabe), pelo caminho do mar Vermelho, a rodear a terra de Edom, mas o povo ficou impaciente na jornada. Enquanto seguiam para o norte e para o leste, ao lugar por onde deviam entrar na Terra Prometida, proferiram os israelitas palavras duras contra o Senhor e Moisés por causa do alimento fastidioso (o maná) e da falta de água. E o povo falou contra Deus e Moisés: “Por que nos fizeste subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil”. Um comentário disparatado acerca do pão do céu (Sl 78.24,25; 105.40; cf. Jo 6.31). “Essa décima primeira murmuração a ser destacada seguiu a mesma linha de raciocínio das anteriores: o fértil Egito fora deixado para trás, e os filhos de Israel tinham ficado retidos em um deserto estéril e miserável; o suprimento alimentar era muito escasso; não havia água potável; e o maná se tornara enjoativo para eles”.[1]
Então, o Senhor mandou entre o povo serpentes abrasadoras (venenosas), que mordiam o povo e cuja picada era ardente e mortal; e morreram muitos de Israel. O juízo de Deus foi imediato. Yahwéh puniu a impaciência e a falta de confiança de Israel enviando serpentes abrasadoras, instrumentos de seu julgamento sobre um povo rebelde. Todos os casos de murmuração de Israel foram enfrentados com algum tipo de julgamento. Yahwéh não tolerava tão profunda ingratidão por parte de seu povo. Esse ataque com serpentes foi atribuído diretamente a Deus e associado à última murmuração do povo. Algumas passagens da Bíblia referem-se a esse evento histórico que, assim como fala do julgamento de Deus sobre o pecado, também fala da provisão para livramento e cura. Moisés recordou como o Senhor havia guiado seu povo através de um terrível deserto cheio de serpentes ardentes (Dt 8.15). Paulo insiste com os cristãos de Corinto para não tentarem Cristo como seus ancestrais tinham tentado a Deus no deserto e foram destruídos por serpentes (1Co 10.9).
Os israelitas reconheceram seu pecado de murmuração e se arrependeram, procurando o fim da praga e a cura para os que eram picados pelas cobras. O povo veio até Moisés, confessando: “Havemos pecado, porque temos falado contra o SENHOR e contra ti; ora ao SENHOR que tire de nós as serpentes. Então, Moisés orou pelo povo”. Seja como for, esta é a última vez em que se menciona que os israelitas murmuraram a respeito do seu alimento e desejou as iguarias do Egito. O Senhor Deus disse a Moisés para que fizesse uma serpente de bronze (cobre, cf. Dt 8.9) e a colocasse sobre uma haste, e todo mordido que olhasse para ela seria curado e viveria. A confecção da serpente de bronze, sua colocação no meio do povo e a salvação que foi experimentada vinham completa e inteiramente de Deus.
Mas por que fazer uma serpente e por que fazê-la de bronze/cobre, uma vez que em Israel as serpentes eram impuras e personificavam o pecado? (cf. Gn 3; Lv 11.41,42). Segundo Wenhan, “Pode ser que tenha sido escolhido o cobre não apenas porque a sua coloração combinava com a inflamação causada pelas mordeduras, mas porque o vermelho é a cor que simbolizava a expiação e a purificação”.[2] Van Groningen destaca: “O próprio meio empregado para castigar, punir e trazer a morte aos rebeldes é usado por Yahwéh para trazer cura e vida. As serpentes eram um meio prontamente disponível para julgamento; Yahwéh usou a mesma serpente, contrariando a seu comportamento usual e esperado, como símbolo de libertação, de cura e de vida”.[3] É o princípio da identificação: serpente com serpente; Cristo com o ser humano; a cor do metal/o sangue de Cristo.
Uma vez cumprida a ordem divina (por Moisés em fazer a serpente de bronze, pondo-a sobre uma haste, e pelo povo mordido em olhar para ela) os efeitos desejados foram obtidos. A antiga serpente (Satanás) era a causa da morte temporal e espiritual. Jesus Cristo, “em semelhança de carne pecaminosa” (Rm 8.3) foi feito “pecado por nós” (2Co 5.21), e assim cumpriu, conforme ele mesmo disse a Nicodemos, o tipo da serpente de bronze: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3.14,15).
Em ambos os casos (Nm 21 e Jo 3), a morte ameaça como castigo do pecado; em ambos os casos é Deus mesmo que, em sua graça soberana, provê um remédio; em ambos os casos o remédio consiste em algo (ou alguém) que deve ser levantado à vista de todos; em ambos os casos os que, com coração crente, olham para o que (ou, aquele que) é levantado, são curados. De acordo com Hendriksen, “Aqui [em Jo 3.14,15], como sempre ocorre, o Antítipo transcende enormemente o tipo. Em Números o povo se depara com uma morte física; em João a humanidade se vê sob a pena de morte eterna por causa do pecado. Em Números o que é levantado é o tipo; mas este tipo – a serpente de bronze – não tem poder para curar. Aponta para o Antítipo, Cristo, que é quem possui esse poder. Em Números sublinha-se a cura física: quando alguém fixava os olhos na serpente de bronze, era-lhes devolvida a saúde. Porém, em João o que se concede ao que deposita sua confiança naquele que foi levantado é vida espiritual, vida eterna”.[4]
Van Groningen conclui:
O significado messiânico da serpente de bronze, portanto, deve ser visto na palavra de julgamento e de redenção de Yahwéh cumprida no meio de seu povo. Uma obra messiânica, em seu aspecto mais amplo, foi realizada. O que Yahwéh fez por meio de serpentes ardentes e da serpente de bronze, de um modo simbólico e ao mesmo tempo real, aponta definitiva e realisticamente para o cumprimento da promessa de redenção do veneno do pecado (instigado por Satanás e a serpente; cf. Gn 3.1-9) e a realização da vida, rica e completa, num paraíso renovado e recuperado.[5]
O salário do pecado é a morte (cf. Rm 6.23; 1Co 10.9); o arrependimento é uma atitude que agrada a Deus (cf. Sl 51.17); a graça é o antídoto de Deus contra o veneno do pecado (cf. Rm 6.23); a fé é o “olhar” que salva (cf. Is 45.22; Jo 3.14,15; Hb 12.2).
A serpente de metal foi preservada pelos filhos de Israel e levada à terra de Canaã; recebeu o nome de Neustã (peça de bronze) até que finalmente foi destruída pelo rei Ezequias, depois de ter sido transformada em um objeto de adoração idólatra (2Rs 18.4).





[1] Russell N. Champlin, O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 684.
[2] Gordon J. Wenhan, Números: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 165.
[3] Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 219-20.
[4] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 149. Itálicos do autor.
[5] Van Groningen, p. 220.

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