terça-feira, 5 de março de 2019

A oração privada

Josivaldo de França Pereira


 “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6).

A oração privada é uma preciosidade incomparável. Quando um crente deixa tudo para trás de si, do outro lado da porta, no intuito de buscar ao Senhor com súplicas e preces, certamente ele estará vivenciando uma das mais tremendas e gloriosas experiências na presença do seu Deus.
O texto de Mateus 6.6 pode ser lido melhor assim: Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto [teu lugar secreto] e, fechada a porta [para que não queiras ser visto pelos homens], orarás a teu Pai, que está em [teu lugar] secreto; e teu Pai, que [te] vê em [teu lugar] secreto, te recompensará.
Em Mateus 6.5 Jesus faz um contraste entre a oração dos crentes sinceros e a oração dos hipócritas: “E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa” (Mt 6.5). Que recompensa é essa que os hipócritas já receberam? É a de serem vistos pelos homens. Segundo Martyn Lloyd-Jones, “Essa é a advertência de Cristo àqueles que já nasceram de novo; pois até mesmo esses necessitam de cuidado para não se tornarem culpados daquela hipocrisia tipicamente farisaica, em suas orações e devoções”.[1]
Em Mateus 6.6 o Mestre mais uma vez se volta para o indivíduo crente a fim de nos ensinar, basicamente, que ao orarmos não devemos chamar a atenção para nós mesmos, senão para o nosso Deus. De acordo com Champlin, em Mateus 6.6 “Jesus não censura a oração pública, nem estabelece regras acerca da oração, mas enfatiza a necessidade do espírito humilde nas orações”.[2] Em outras palavras, o ser inteiro daquele que ora deve fixar sua atenção em Deus, concentrando-se nele todo o interesse, esquecendo-se de qualquer outra coisa que não glorifique ao Senhor.
Sabemos que Daniel orava a Deus três vezes ao dia, e sempre com as janelas do quarto abertas, de modo que podia ser visto por quem ali passasse; porém, ele não abria as janelas por ostentação e exibicionismo, para mostrar a todos o quanto ele era um homem de oração. Daniel abria as janelas do quarto por estarem elas voltadas em direção à Jerusalém (Dn 6.10; cf. 1Rs 8.46-50; 2Cr 6.36-39).
Hendriksen comenta:
Aqui novamente [em Mt 6.6] é necessário acrescentar que o propósito de entrar no lugar secreto e fechar a porta pode ser malogrado se alguém começa a publicar esta prática, como alguns ministros têm por costume fazer, quando se inicia o culto de adoração – às vezes ainda na oração pastoral – declaram à congregação que antes de se assentarem para preparar o sermão fecharam a porta da sala de estudo e passaram tantos e tantos minutos em fervente oração.[3]
“E se eu”, poderia indagar alguém, “não tivesse um local ou quarto particular para ser usado na minha oração privada?”. Se por acaso não houvesse, seria preciso buscar um lugar onde não vissem você. Na verdade, a ênfase de Jesus nem sequer está no recinto da oração, mas na atitude da mente e do coração.
O que ora com a disposição correta da mente e do coração é abençoado com a promessa de Jesus: “teu Pai, que [te] vê em [teu lugar] secreto, te recompensará”. Aquele que assim ora terá paz de coração e mente. Saberá que o Pai celestial, em seu amor infinito, dará ao que suplica o melhor para ele e a todos por quem ele intercede. Também saberá que este mesmo Pai “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos” (Ef 3.20).

Pai, fechei a porta atrás de mim,
O mundo eu esqueci.
Quero conversar contigo a sós meu Pai.
 (Gladir Cabral)




[1] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 2017, p. 450. Veja também John R. W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo: ABU, 1986, p. 135-37.
[2] Russell N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 321.
[3] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: San Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 338.

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