quarta-feira, 20 de maio de 2020

A imaginação

Josivaldo de França Pereira


Aurélio define imaginação como 1. Faculdade que tem o espírito de representar imagens; fantasia. 2. Faculdade de evocar imagens de objetos que já foram percebidos; imaginação reprodutora. 3. Faculdade de formar imagens de objetos que não foram percebidos, ou de realizar novas combinações de imagens: imaginação criadora. 4. Faculdade de criar mediante a combinação de ideias. 5. A coisa imaginada. 6. Criação, invenção. 7. Cisma, fantasia, devaneio. 8. Crença fantástica; crendice; superstição. 9. Invenção ou criação construtiva, organizada (por oposição a fantasia, invenção arbitrária).
Na filosofia, a imaginação é uma das cinco faculdades do intelecto, junto com o juízo, a percepção, a memória e a razão. Os racionalistas opunham a imaginação à razão. Eles entendiam que a imaginação é uma qualidade secundária diante da razão. Jean Paul-Sartre escreveu uma obra chamada O imaginário: psicologia fenomenológica da imaginação. Nesse livro Sartre segue a visão racionalista quando afirma que a imaginação é uma qualidade secundária do subconsciente em relação à consciência, embora defenda, ao mesmo tempo, que a imagem é uma consciência.
Albert Einstein, o pai da teoria da relatividade, era bem conhecido por sua mente imaginativa. Descobrir a lei da gravidade que superaria a teoria de Isaac Newton foi uma tarefa extremamente difícil, mas Einstein tinha a seu favor o velho e bom costume da imaginação. O que para nós seria “sonhar acordado”, ele chamava de experiência imaginária. Sua compreensão da lei da gravidade surgiu em um desses momentos. Quando ele estava dentro de um elevador supôs um homem descendo a toda velocidade nele. O que aconteceria com o homem antes da máquina elevatória chegar lá embaixo?
Ben Carson é um médico negro norte-americano que alcançou fama mundial como neurocirurgião pediátrico. Quando criança Carson tinha dificuldade no aprendizado e se considerava "burro". No filme Mãos Talentosas – A História de Ben Carson, sua mãe, uma diarista analfabeta, diz a ele: “Você precisa enxergar além do que vê”. Já estava formado, mas foi imaginando uma torneira de água, abrindo e fechando, que Carson compreendeu como separar duas crianças gêmeas siamesas unidas pela cabeça sem que houvesse risco de hemorragia.
Uma amiga minha me disse que na psicologia cognitivo-comportamental imaginação (ou imaginar) é a capacidade que o cérebro humano tem de representar situações vividas e/ou criar, simular situações. Nosso cérebro não diferencia as situações reais das imaginárias. Ele trabalha com ambas da mesma maneira, pois é um excelente simulador.[1]
Na Bíblia o verbo imaginar aparece onze vezes, sendo na maioria delas de forma negativa, para se referir aos pensamentos vãos do ser humano. Temos talvez uma exceção ao sentido negativo do verbo no Antigo Testamento, quando a soberba Babilônia presumia o bem para si própria. Contudo, o profeta Isaías declarou que o pior estava por vir contra ela: “Pelo que sobre ti virá o mal que por encantamentos não saberás conjurar; tal calamidade cairá sobre ti, da qual por expiação não te poderás livrar; porque sobre ti, de repente, virá tamanha desolação, como não imaginavas” (Is 47.11). Seja como for, “a Babilônia estava impotente para impedir o dia divino de prestação de contas”.[2]
Em toda a Bíblia o substantivo imaginação ocorre uma única vez. Novamente a ideia negativa está presente. Paulo anuncia aos gregos de Atenas que a idolatria é fruto da mente pecadora: “Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem” (At 17.29).
Stott sumariza Atos 17.29 dizendo que “toda idolatria é uma tentativa de minimizar o abismo entre o Criador e suas criaturas, para colocá-lo sob nosso controle. E mais do que isso, ela inverte as posições entre Deus e nós, de modo que, em vez de reconhecermos humildemente que Deus nos criou e nos governa, temos a ousadia de imaginar que podemos criar e governar Deus”.[3]





[1] Erileide Ferreira Alves, psicóloga clínica graduada em psicologia e pós-graduada em neurociências e psicologia aplicada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Informação recebida via MSN em 20/05/2020.
[2] R. N. Champlin, O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 5. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 2923.
[3] John Stott, A Mensagem de Atos. 2ª ed. São Paulo: ABU, 2015, p. 323.

Nenhum comentário:

Postar um comentário