domingo, 28 de junho de 2020

O pão na oração do Pai Nosso

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”
(Mt 6.11)

Josivaldo de França Pereira

Há uma tendência cada vez maior nos dias de hoje em se espiritualizar o pão da oração do Pai Nosso (também chamada de oração do Senhor e Dominical).  Argumenta-se que todas as demais petições dela são espirituais (Mt 6.9-13; Lc 11.2-4), levando a concluir que o “pão nosso” deva ser algo espiritual também, como por exemplo, o alimentar-se da palavra do Senhor, visto que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (cf. Dt 8.3; Mt 4.4; Lc 4.4).
Contudo, o fato de todas as outras petições da oração do Senhor serem espirituais (como dizem), só reforça a ideia de que o pão deve ser entendido fisicamente. Além disso, pedir ao Pai que nos dê o pão nosso de cada dia não é ser igualmente espiritual? Recordemos que o Senhor Jesus também se preocupou com o nosso bem-estar material, quando disse que não devemos andar ansiosos pela nossa vida quanto ao comer, beber e vestir porque o Pai celestial é quem supre todas as nossas necessidades físicas (Mt 6.25-34). E quando os discípulos quiseram despedir as multidões que passaram o dia inteiro ouvindo o Mestre, ele somente as dispensou após serem alimentadas com pão e peixe (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; 8.1-10; Lc 9.10-17; Jo 6.1-14).
De acordo com James Packer, “Alguns consideram as petições pelas necessidades materiais como orações de baixo nível, como se Deus não estivesse interessado no lado físico da vida, e, por conseguinte, nós também não deveríamos estar. Todavia, essa hiperespiritualidade é, na verdade, apenas uma passagem não espiritual para o ego [cf. Cl 2.23]”.[1] E mais: “Deus se importa com nossas necessidades físicas assim como com as espirituais. Para Deus, a categoria básica das necessidades humanas compreende o espiritual e o material”.[2]
Como os reformadores Lutero e Calvino, e os autores dos catecismos de Heidelberg, Maior e Breve de Westminster entenderam a palavra “pão” na oração do Pai Nosso? Parece que Martinho Lutero (1483-1546) experimentou dois momentos, duas fases, na interpretação do pão de Mateus 6.11 e Lucas 11.3.
A primeira interpretação de Lutero é mais alegórica e está no livro O Pai Nosso. Nessa obra Lutero insiste que o pão é a palavra de Deus ou Cristo: “Cristo é o pão, a palavra de Deus também é o pão, mas se trata, no entanto, de uma coisa só e de um só pão; porque Cristo está na palavra, e a palavra nele; e crer na palavra é comer o pão. E a quem Deus conceder isto, esse viverá eternamente”.[3] Quanto à pergunta que ele próprio faz: “Não rogamos, por acaso, ao mesmo tempo, pelo pão material?”, Lutero apenas diz: “Sim, também se pode subentender o pão material, mas, sobretudo, o pão espiritual das almas: Cristo”.[4] E ele finaliza: “Pois se trabalhamos humildemente, segundo o mandamento, Deus já fará o restante”.[5]
Mas em seu Catecismo Menor notamos um entendimento bem diferente. Nele Lutero apresentou uma vasta lista para explicar o sentido da palavra pão: “comida, bebida, vestuário, calçado, casas, propriedades rurais, campos de esporte, estâncias de gado, dinheiro, outros bens, bom casamento, bons filhos, boas e fiéis autoridades, um governo justo, um tempo favorável (não muito quente nem muito frio), saúde, honras, bons amigos, vizinhos fiéis”.[6] Karl Barth, após citar a lista de Lutero, comenta: “É certamente permitido pensar no ‘pão nosso de cada dia’ neste sentido largo da expressão. Não obstante, insisto em sublinhar que é recomendável não perder de vista a palavra original ‘pão’ em toda a sua simplicidade”.[7]
João Calvino (1509-1564) discorda de Lutero tanto na alegorização quanto na ampla definição de pão na oração do Senhor. De acordo com Calvino, na quarta petição “pedimos de Deus todas as coisas em geral de que o uso do corpo necessita sob os elementos deste mundo [Gl 4.3], não somente com o que sejamos alimentados e vestidos, mas também tudo quanto ele mesmo antevê que nos conduz a que comamos nosso pão em paz. Em suma, por esta petição nos entregamos ao seu cuidado e nos confiamos à sua providência, para que nos dê alimento, sustente e preserve”.[8]
O Catecismo de Heidelberg, publicado por Zacarias Ursino e Gaspar Oleviano em 1563; os catecismos Maior e Breve da Assembleia de Westminster (1643-1649) seguem os argumentos elucidativos de Calvino. O primeiro deles pergunta: “Qual é a quarta súplica?”. Resposta: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje; isto é: digne a ti prover-nos de tudo o que é necessário para o corpo, a fim de que, por isso, reconheçamos que tu és a única fonte de todo bem, e que nem nossas necessidades, nem trabalho, nem inclusive os bens que tu nos concedes, sejam proveitosos a nós, antes nos prejudiquem, sem a tua bênção”.[9]
No Breve Catecismo de Westminster, Pelo quê oramos na quarta petição?, que é: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, pedimos que da livre dádiva de Deus recebamos uma porção suficiente das coisas boas desta vida, e gozemos com elas das suas bênçãos”.[10]
E no Catecismo Maior de Westminster, O que pedimos na quarta petição? “Na quarta petição, que é: ‘O pão nosso de cada dia nos dá hoje’ – reconhecendo que, em Adão e pelo nosso próprio pecado, perdemos o nosso direito a todas as bênçãos exteriores desta vida, e que merecemos ser, por Deus, totalmente privados delas, tendo elas se transformado em maldição para nós, no seu uso; que nem elas podem de si mesmas nos sustentar, nem nós podemos merecê-las nem pela nossa diligência consegui-las, mas que somos propensos a desejar, obter e usar delas ilicitamente –, pedimos, por nós mesmos e por outros, que tanto eles como nós, dependendo da providência de Deus, de dia em dia, no uso de meios lícitos possamos, do seu livre dom e conforme parecer bem à sua sabedoria paternal, gozar de uma porção suficiente desses favores e tê-los continuados e abençoados para nós em nosso santo e confortável uso e contentamento; e que sejamos guardados de tudo quanto é contrário ao nosso sustento e conforto temporais”.[11]
Conforme vimos até aqui, podemos concluir que o pão na oração Dominical tem três sentidos fundamentais. O primeiro é o de pão mesmo (a dieta básica na cultura judaica e de outros povos); o segundo envolve toda forma de alimento (sólido ou líquido) e o terceiro inclui a saúde do corpo, o ganha pão (trabalho) e todo tipo de provisão material necessário para nossa subsistência física e manutenção elementar. Segundo Packer, “só devemos pedir pelo pão que necessitamos; ou seja, pelo suprimento das necessidades, não dos luxos que não são essenciais”.[12] E Barth lembrou bem: “Em ‘pão nosso’, alguns dos Reformadores englobaram (e podemos fazê-lo com eles) tudo o que temos necessidade para viver”.[13]
"Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (1Co 10.31).




[1] J. I. Packer, A Oração do Senhor. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 64.
[2] Ibidem. Itálico do autor.
[3] Martinho Lutero, O Pai Nosso. São Paulo: Fittipaldi, 1965, p. 95.
[4] Idem, p. 99.
[5] Idem, 100.
[6] Citado por Karl Barth, O Pai Nosso: A oração que Jesus ensinou aos discípulos. São Paulo: Novo Século: 2003, p. 55.
[7] Ibidem.
[8] Institutas, III,xx,44. Veja também Juan Calvino, Breve Instruccion Cristiana. 3ª ed. Paises Bajos: Felire, 1990, p. 63-64.
[9] Catecismo de Heidelberg, Pregunta y Respuesta 125 (cf. Dt 8.3; Sl 37.16; 55.22; 62.10; 104.27; 127.1,2; 145.15; 146.3; Jr 17.5,7; Mt 6.26; At 14.17; 17.25; 1Co 15.58; Tg 1.17).
[10] O Breve Catecismo de Westminster, Pergunta e Resposta 104 (cf. Pv 10.22; 30.8,9; 1Tm 6.6-8).
[11] O Catecismo Maior de Westminster, Pergunta e Resposta 193 (cf. Gn 3.17; 28.20,21; 32.10; Dt 8.3,18; Sl Sl 90.17; 144.12-15; Pv 10.22; 30.8,9; Jr 6.13; Lm 3.22; Os 12.7; Mt 6.11; 1Tm 4.4,5; 6.6-8; Tg 4.3,13,15).
[12] Packer, p. 66. Ênfase do autor.
[13] Barth, p. 54.

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