segunda-feira, 1 de junho de 2020

Os judaizantes

Josivaldo de França Pereira

Uma das palavras que um crente experiente deve ter ouvido bastante durante sua jornada cristã, e até mesmo os novos convertidos, talvez seja o vocábulo “judaizantes”. O curioso é que o nome judaizantes não aparece na Bíblia. Ele se originou de uma expressão grega de Gálatas 2.14; em português “viverem como judeus”.
O termo surge novamente nas cartas de Inácio (Maq. 8:1; Phil. 5). Na qualidade de bispo de Antioquia, ele se opunha àqueles que insistiam sobre a necessidade da circuncisão, da observância do sábado e de outros costumes tipicamente judaicos, incluindo a guarda da lei como uma forma de vida meritória, a fim de se obter a salvação.[1]
Bruce se refere aos judaizantes da época paulina como o partido “da mutilação”, por tirarem da cruz de Cristo a suficiência dela.[2] Leia Gálatas 1.6-9; Colossenses 2.16-19.
Os judaizantes estão associados aos embates de Paulo, em especial na epístola aos Gálatas. Todavia, eles aparecem pela primeira vez no capítulo 11 do livro de Atos. Ao retornar Pedro da casa de Cornélio são os judaizantes que cobram do apóstolo uma explicação: “Quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram da circuncisão o arguiram, dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles" (At 11.2,3).
Na expressão “os que eram da circuncisão” de Atos 11.2, a palavra circuncisão não tem o mesmo sentido das ocorrências de Gálatas 2.7-9. Em Atos trata-se de judeus convertidos ao cristianismo; em Gálatas, dos judeus incrédulos, não-crentes em Cristo Jesus.[3]
Somente um judeu, ou quanto muito um prosélito radical, poderia tornar-se primeiro num judaizante e depois convencer cristãos gentios a sê-lo, conforme estava acontecendo na igreja da Galácia (Gl 1.6-9).
Mas que tipo de judeu, propriamente, seria um forte candidato a judaizante? Um ex-fariseu, por exemplo. Leia Atos 15.1-5. Isso não quer dizer que todo ex-fariseu convertido ao cristianismo viraria judaizante. Paulo foi fariseu (Cl 3.5), contudo, a sua compreensão de salvação pela graça dispensa comentários. Em Atos 15, a fala de Pedro no Concílio de Jerusalém favorece a teologia paulina: “Mas cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles [de Cornélio] o foram" (At 15.11; cf. Ef 2.5,8).
Na sequência, o parecer de Tiago é mais político, por assim dizer, posto que ele, na sua sabedoria, busca apaziguar os ânimos dos judaizantes também, principalmente quando defende que os gentios convertidos se abstenham “da carne de animais sufocados e do sangue" (At 15.20), e conclui: “Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados” (At 15.21).
O mais interessante é que em Gálatas 2 o apóstolo Paulo registra certo comportamento “judaizante” de Pedro, antes de chegarem alguns da parte de Tiago (Gl 2.11-14). Você deve estar lembrado que o ponto de vista da doutrina da justificação de Paulo e Tiago é diferente. Enquanto Paulo afirma que Abraão foi justificado somente pela fé e não por obras (Rm 4), Tiago declara que Abraão foi justificado por obras e não por fé somente (Tg 2.14-26).
Não obstante, a aparente contradição entre eles é resolvida quando percebemos que a fé sem obras é morta. E nisso tanto Paulo quanto Tiago, assim como os demais autores do Novo Testamento, estão de pleno acordo. A fé não pode existir separada das obras e as obras não podem ser realizadas sem fé. Para Paulo e Tiago, obras agradáveis a Deus são uma consequência natural da verdadeira fé (ver Fp 1.27; 1Ts 1.3; Tg 2.20-24).[4]
Os judaizantes modernos existem e vagueiam por aí. Sempre haverá aqueles que dizem acreditar em Jesus Cristo, porém, eles vivem à procura de algo mais. Acham que o sacrifício no Calvário não foi completo.
O adventismo do sétimo dia, exatamente como os judaizantes dos tempos bíblicos, pensa que o ser humano é salvo pela prática da lei judaica, anulando, assim, a obra exclusiva e perfeita de Jesus.
A IURD, por sua vez, constrói uma réplica do Templo de Salomão, ignorando que Paulo e o autor da carta aos Hebreus ensinam que o Templo, seus utensílios e cerimônias apontavam para Cristo (Cl 2.16-19; Hb 9.1-10). Por isso, disse Jesus: “Não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada" (Mt 24.2; Mc 13.2; Lc 21.6).
Cristo é tudo!




[1] Citado por Russell N. Champlin, Judaizar, Judaizantes. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 3. 12ª ed. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 619.
[2] F. F. Bruce, Paulo, o Apóstolo da Graça: Sua Vida, Cartas e Teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2014, p. 451.
[3] Exceto Gálatas 2.12,13, onde “os da circuncisão” e “judeus" são sinônimos de judaizantes.
[4] Cf. Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Tiago e Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 124-125.

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