terça-feira, 8 de setembro de 2020

Por que Noé foi chamado “pregoeiro da justiça” em 2Pedro 2.5?

Josivaldo de França Pereira

Noé nasceu por volta do ano 1000 da criação do primeiro homem. Se Enoque é “o sétimo depois de Adão” (Jd 14), Noé foi o décimo. Em seu tempo a maldade, corrupção e violência da raça humana atingiram o ápice da pecaminosidade na terra (Gn 6.1-7,11-13; cf. Gn 15.16). “Porém Noé achou graça diante do SENHOR. Eis a história de Noé: Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus” (Gn 6.8,9). Noé foi o primeiro homem descrito nas Escrituras como justo.
O profeta Ezequiel escreveu sobre a possibilidade de Deus enviar fome a um país que peca contra ele; se Noé, Daniel e Jó estivessem nesse país, poderiam salvar a si mesmos por sua retidão (Ez 14.14,20). Quando o patriarca nasceu, seu pai Lameque “pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou” (Gn 5.29).[1] “Noé, pois, é apresentado como pregoeiro da justiça, e isso pode estar envolvido nesse conceito".[2]
Noé levou 120 anos para construir a arca que salvaria a ele, sua família e várias espécies de animais do dilúvio (Gn 6.3,18-22). O Antigo Testamento não declara que Noé falou aos que seriam tragados pelo dilúvio destruidor; pelo contrário, na comparação com eles mostra que somente o patriarca alcançou graça perante Deus no meio daquela geração moralmente corrompida.
Contudo, o apóstolo Pedro, por divina inspiração, afirma: “e [Deus] não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé, pregoeiro da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo de ímpios” (2Pe 2.5; destaque acrescentado). O contexto de Pedro para essa menção a Noé está no justo castigo de Deus contra os falsos mestres da era apostólica.
Noé não proclamou boas novas de salvação; ou seja, ele não pregou a fim de que houvesse arrependimento da parte de seus contemporâneos ou esperança de redenção para eles. A missão de Noé era anunciar o juízo e condenação de Deus sobre o mundo antigo de ímpios enquanto construía a arca: “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). “A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência” (Gn 6.11).
Diferentemente da destruição de Sodoma e Gomorra em que os genros de Ló tiveram a oportunidade de escapar, mas recusaram (Gn 19.12-14), ou de Jonas que clamou contra Nínive, e esta se arrependeu (Jn 3), para os contemporâneos de Noé não haveria perdão: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gn 6.7; cf. 6.13). “Nenhum profeta jamais pregou tal mensagem de destruição como Noé o fez por tanto tempo – 120 anos. Além do mais, Noé pregou ao mundo inteiro da época”.[3]
O patriarca achou graça diante do Senhor porque apenas ele e sua casa foram tementes a Deus e não se contaminaram pela maldade, corrupção e violência do mundo de outrora. Mesmo assim, eram eles quem teriam de construir a arca. O Senhor não a entregaria prontinha a Noé e sua família. Aquilo que não podemos fazer Deus executa por nós; aquilo que podemos realizar Deus nos ajuda a fazer. Noé foi divinamente instruído (cf. Gn 6.14-22; Hb 11.7).
A arca foi construída gigantesca não para caber mais gente, mas para abrigar Noé, sua família e muitos animais. Portanto, a Noé bastava simplesmente noticiar sem dó nem piedade aos ímpios de seu tempo que Deus inundaria a terra com um dilúvio. Lembremos que não há registro algum do patriarca pregando no livro de Gênesis. É Pedro quem observa que Noé o fez. A palavra “pregoeiro” vem do grego kerygma (proclamação, pregação). O vocábulo “justiça” em 2Pedro 2.5 deve ser entendido como justiça retributiva ou punitiva de Deus contra aqueles que persistem no pecado.
Nos filmes sobre Noé, geralmente aparecem as pessoas zombando dele e o chamando de louco por construir uma enorme embarcação onde quase não chove. E depois essas mesmas pessoas estão batendo na porta da arca suplicando que as deixem entrar por causa de enchente. Pode ter acontecido mais ou menos isso mesmo; é impossível saber com exatidão, mas podemos ter certeza que Noé sentiu a dureza de coração daquelas pessoas (cf. 2Tm 3.12). A Bíblia destaca que o próprio Deus fechou a porta da arca (Gn 7.16), de modo que ela não poderia ser aberta por fora nem por dentro enquanto a terra estivesse molhada (Gn 8.14-19).
O autor da carta aos Hebreus complementa bem o pensamento de Pedro acerca do herói da fé diluviano, quando diz: “Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé” (Hb 11.7; destaque acrescentado). Segundo Turner, “A arca representava o veredito simbólico de Noé, de que o mundo já estava condenado”.[4] Vale ressaltar também que, ao contrário de 2Pedro 2.5, em Hebreus 11.7 “justiça” é a justificação por meio da fé (cf. Hc 2.4; Rm 1.17; Hb 10.38).
Em seu comentário de 2Pedro 2.5, Simon Kistemaker conclui: “Se Deus não poupou o mundo antigo nos dias de Noé, por que esperar que pouparia os falsos profetas do tempo de Pedro? Porém, assim como Deus protegeu o crente Noé e sua família, ele poupará os cristãos que permanecerem fiéis aos ensinamentos das Escrituras. Em outras palavras, a mensagem de Pedro tem a intenção de exortar e encorajar os leitores de sua epístola”.[5]




[1] O nome Noé vem de um termo hebraico que indica “descanso”, “alívio”, “consolo". Consulte R. N. Champlin, Noé. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 4. 12ª ed. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 511-512.
[2] Idem, p. 512.
[3] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 447.
[4] D. D. Turner, Hebreus. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1981, p. 115.
[5] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Epístolas de Pedro e Judas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 386.

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