quinta-feira, 22 de outubro de 2020

"Desejo” em Gênesis 3.16

Josivaldo de França Pereira


Versões da Bíblia:


“... o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (ARA).
“... seguirás desejando influenciar o teu marido, mas ele te dominará” (KJA).

Quase todas as versões da Bíblia em português traduzem Gênesis 3.16 igual ou parecido à Almeida Revista e Atualizada. São traduções praticamente literais do hebraico. A versão da King James Atualizada é mais interpretativa.

Interpretações:

A cláusula “... o teu desejo será...” é a tradução de uma única palavra hebraica: teshûqãtekh (de teshûqãh, desejo). Em Gênesis 3.16 o vocábulo “desejo" tem recebido, em especial, três interpretações distintas:

Interpretação 1: desejo sexual

Jarchi pensava que o teu desejo em Gênesis 3.16 sugere somente o desejo sexual da mulher, e isso visto como parte da exploração dela. Ele e outros comentaristas bíblicos discutem acerca do fato de que o autor sacro indicava desse modo que as relações sexuais entre homem e mulher são o ponto focal do domínio de exploração que o homem exerce sobre a mulher. Adam Clarke oferece um curioso significado ao termo “desejo”. Ele supunha que seria o desejo sexual, e que a mulher cai na armadilha do sexo, ou seja, por mais que ela tente, não é capaz de escapar às dores do parto. Ela desejará o sexo, mas sofrerá na hora do parto. Nesse caso, o desejo seria o apetite sexual. Ellicott, por sua vez, compreende que o desejo refere-se a um “anseio natural pelo casamento”. Sem importar as dores que lhe traga, ainda assim a mulher deseja muito esse estado.[1]

Interpretação 2: desejo não-sexual

Wayne Grudem, seguindo o pensamento de Susan T. Foh, diz que ela argumentou com eficácia que a palavra traduzida por “desejo” significa “desejo de conquistar”, e aponta que Eva teria o desejo ilegítimo de usurpar a autoridade do marido. Se essa interpretação da palavra “desejo” está correta, como parece estar segundo Grudem, então indicaria que Deus introduz um conflito no relacionamento entre Adão e Eva, e o desejo de Eva de rebelar-se contra a autoridade de Adão.[2] Grudem procura justificar seu ponto de vista dizendo que o paralelismo no texto hebraico entre Gênesis 3.16 e 4.7 é bastante notável: seis das palavras (contando conjunções e preposições) são exatamente as mesmas, e estão na mesma ordem.[3]

Interpretação 3: desejo sexual e outros

Champlin entende Gênesis 3.16 não somente como o desejo sexual da mulher, mas toda a sua vontade, prazer e desejos, que ficariam sujeitos ao veto ou aprovação de seu marido. A afirmação destaca a dependência da mulher ao seu marido. Na antiguidade, essa supremacia do homem era exercida mediante um tratamento extremamente arbitrário e, com frequência, isso continua até os tempos modernos. Mui significativamente, o autor do livro de Gênesis faz essa condição aparecer como um resultado da queda no pecado. Presumivelmente, antes disso, a mulher era uma auxiliadora (Gn 2.18), o que envolvia sujeição, mas não aviltamento. Todo domínio e ditadura que uma pessoa possa manter sobre outra deve ser tida como parte da desordem reinante e resultante do pecado.[4]

Concluindo:

Se tivesse de escolher entre uma ou mais interpretações de “desejo” em Gênesis 3.16, eu ficaria com a de número 1 ou 3, isto é, desejo sexual somente, como propõe Jarchi, ou sexual e outros desejos, como sugere Champlin. Tenho dificuldade com a interpretação de Grudem por excluir o desejo sexual. Em suas notas ele conclui: “É improvável que a palavra signifique “desejo sexual”, pois esse não começou com a queda, nem faria parte da maldição divina”.[5] Mas, conforme ele mesmo afirma, após a queda Deus introduziu o conflito e a dor no relacionamento anteriormente harmonioso entre Adão e Eva. Quanto ao paralelismo de Gênesis 3.16 e 4.7, os contextos são diferentes. Os elementos envolvidos são outros.

 

 



[1] Citação de autores por Russell N. Champlin, O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 1. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 36.

[2] Wayne Grudem, Teologia Sistemática. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 381. Destaque do autor. Essa interpretação segue a versão King James Atualizada. Na mesma linha de entendimento estão Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Comentários do Antigo Testamento: Gênesis. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 112.

[3] Grudem, p. 386 nota 20.

[4] Champlin, p. 36. Destaques do autor.

[5] Grudem, p. 386 nota 20.


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