sábado, 16 de fevereiro de 2019

Atitudes para com o próximo

(A mensagem de Lucas 10.30-35)

Josivaldo de França Pereira

Um intérprete da lei se levantou com o intuito de por Jesus à prova, perguntando o que devia fazer para herdar a vida eterna. Jesus respondeu com duas outras perguntas: “Que está escrito na lei? Como interpretas?”. O homem respondeu citando os dois grandes mandamentos, ou seja: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Jesus disse que a resposta estava correta, e completou: “faze isto e viverás”. Não satisfeito com a objetividade do Mestre, querendo justificar-se, o intérprete da lei indagou: “Quem é o meu próximo?”. Jesus prosseguiu contando a famosa história de Lucas 10.30-35, na qual se destacam três atitudes distintas em relação ao próximo.
1.      Uma atitude inaceitável: O que é seu é meu.
A atitude inaceitável foi executada pelos salteadores. Eles fizeram simplesmente um estrago no homem que seguia tranquilamente seu caminho, porque “depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto”. Uma atitude sádica, covarde e bandida é o mínimo que se pode esperar de gente assim. O ladrão nunca aparece para trazer boas novas ou fazer o bem a quem quer que seja. Parece surgir do nada, chegando de repente, sem aviso prévio, causando terror e tragédia na vida das pessoas. Jesus sintetizou muito bem a ação de um salteador quando disse no evangelho de João: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir...” (Jo 10.10). A atitude inaceitável de um bandoleiro e malfeitor resume-se nisto: “O que é seu é meu”.
2.      Uma atitude não recomendável: O que é meu é meu.
A atitude não recomendável foi praticada pelo sacerdote e o levita. Ambos iam de Jerusalém para Jericó quando se depararam com um homem despido, ensanguentado e semimorto no meio do caminho. Note que o homem espancado pelos salteadores fazia o mesmo trajeto do sacerdote e o levita. Ele também “descia de Jerusalém para Jericó”. Isso sugere que ao menos ele era judeu e vizinho do sacerdote e do levita. Jericó era conhecida como a cidade dos sacerdotes e levitas. Provavelmente o sacerdote acabara de ministrar num culto e o levita de cantar no coral da Cidade Santa. Mas eles não praticaram o que fizeram lá. Adoração e louvor que não produzem compaixão para com o próximo não têm sentido para Deus. Religioso que não pratica o evangelho vai sempre “passar de largo” diante de quem precisa de ajuda. A atitude não recomendável de uma pessoa hipócrita e egoísta resume-se nisto: “O que é meu é meu”.
3.      Uma atitude louvável: O que é meu é seu.
A atitude louvável foi realizada pelo samaritano. O homem que por natureza é odiado pelos judeus socorre um judeu. Ele fez o bem sem olhar a quem. É provável que ele tivesse um compromisso urgente, mas abriu mão de sua agenda para assistir ao necessitado. Socorrer uma vida vale mais que qualquer outro negócio. E foi o que o bom samaritano fez. Ele se aproximou do ferido, realizou os primeiros-socorros, transportou-o em seu próprio animal (indicando que ele mesmo seguiu a pé), levou-o para uma hospedaria e tratou pessoalmente dele. Não podendo ficar por mais tempo, no dia seguinte pediu que o hospedeiro cuidasse do homem ferido, pagando por isso. Contudo, retornaria para ver o próximo e indenizar o hospedeiro, caso este tivesse gastado alguma coisa a mais com o enfermo. A atitude louvável de uma pessoa bondosa e altruísta resume-se nisto: “O que é meu é seu”.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Sobre o culto infantil

Josivaldo de França Pereira
Tenho acompanhado o debate recente em torno do culto infantil. Os contrários a ele defendem sua extinção alegando que culto infantil não é bíblico e que testemunhos comprovam que adolescentes e jovens estão fora da igreja hoje porque não participaram do culto junto com seus pais quando pequenos.
Alguns desses relatos são superestimados. Também temos adolescentes e jovens fora da igreja que nunca passaram pelo culto infantil quando crianças, apesar de estarem assentados ao lado de seus pais quando menores.
Os líderes contrários ao culto infantil demonizam-no, pintando-o como se fosse uma abominação dos infernos. Nunca participei de culto infantil quando menino, mas me lembro como eu ficava incomodado com aqueles cultos enfadonhos para mim e dos beliscões de minha mãe por não permanecer quieto no banco.
Culto infantil, a meu ver, é uma questão de bom senso. Não concordo que as crianças devam ser tiradas do culto público para o culto infantil simplesmente porque deva ser assim, mas que se invista em professores no intuito de prepará-los para isso, com didática e material próprios para atender uma faixa etária de crianças de até três ou quatro anos de idade, por exemplo. Não vejo nisso problema algum.
Dizer que os pais querem o culto infantil para se livrar dos filhos no culto não deveria ser uma fala generalizada. Pais que sabem que seus filhos estão em boas mãos e, portanto, despreocupados no culto público, adoram melhor.
Não participei de culto infantil quando pequeno porque não existia no meu tempo, mas gostaria de ter feito parte dele na minha infância. E, com certeza, teria sido um alívio para a minha mãe também.
Nem todos os meus irmãos que cresceram como eu sem o culto infantil, sentados comigo no banco, e mais comportados do que eu, estão hoje na igreja. Penso que um pouco de bom senso nessa questão não faria mal a ninguém.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Argumentos bíblicos a favor do estudo da filosofia

A filosofia apresenta um desafio específico para o cristão, de modo tanto positivo quanto negativo. A filosofia é útil na construção do sistema cristão e na refutação de pontos de vista contrários. Há um texto crucial no Novo Testamento que corresponde a essas duas tarefas. Paulo disse: “Destruímos raciocínios e toda arrogância que se ergue contra o conhecimento de Deus [aspecto negativo], levando cativo todo pensamento para que obedeça a Cristo [aspecto positivo]” (2Co 10.5). Sem um conhecimento profundo da filosofia, o cristão está à mercê do não cristão tanto na construção de um sistema da verdade quanto na demolição de sistemas de erros.
Se essa é a tarefa do cristão na filosofia, como então se explica a advertência do apóstolo Paulo de ter “cuidado para que ninguém vos tome por presa, por meio de filosofias” (Cl 2.8)? Infelizmente, alguns cristãos têm entendido esse versículo como uma determinação contra o estudo da filosofia. Essa ideia é incorreta por várias razões. Primeiramente, o versículo não é uma proibição contra a filosofia propriamente dita, mas contra a falsa filosofia, pois Paulo acrescenta: “e [cuidado com] as sutilezas vazias, segundo a tradição dos homens”. Na realidade, Paulo está advertindo contra uma filosofia falsa específica, um tipo de gnosticismo incipiente que havia se infiltrado na igreja em Colossos (no texto grego há um artigo definido que indica uma filosofia específica). Finalmente, não podemos realmente ter “cuidado” com a falsa filosofia a não ser que primeiramente tenhamos consciência dela. Um cristão deve reconhecer o erro antes de poder combatê-lo, assim como um médico deve estudar a doença antes de poder tratá-la com o devido conhecimento. A igreja cristã tem sido ocasionalmente infiltrada por falsos ensinos exatamente em razão de os cristãos não terem sido adequadamente treinados para detectar a “enfermidade” do erro.
Uma boa falsificação ficará perto da verdade quanto possível. É por isso que filosofias falsas, não cristãs, mas que estão vestidas com roupagem cristã são especialmente perigosas. Na verdade, o cristão com maior probabilidade de se tornar presa de filosofias falsas é o cristão ignorante.
Deus não premia a ignorância. Os cristãos não recebem recompensa espiritual por uma fé ignorante. A fé pode ser mais meritória do que a razão (“sem fé é impossível agradar a Deus”, Hb 11.6), mas a razão é mais nobre (“Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses; [...] examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim”, At 17.11, NVI). Na realidade, o “grande mandamento” para o cristão é: “Amarás o Senhor teu Deus [...] de todo o entendimento” (Mt 22.37). Pedro diz que devemos sempre estar preparados “para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15). Paulo diz que estamos ocupados “na defesa e na confirmação do evangelho” (Fp 1.7) e ele mesmo “arrazoou [...] acerca das Escrituras” (At 17.2, NVI).
É verdade que somos advertidos contra “a lógica do mundo” (1Co 1.20). Mas isso também faz parte do desafio da filosofia para o cristão. Conforme C. S. Lewis corretamente observou: “Sermos ignorantes e ingênuos agora – não sendo capazes de enfrentar os inimigos em seu terreno – seria largar nossas armas e trair nossos irmãos iletrados que não têm, dentro da providência de Deus, defesa alguma além de nós contra os ataques intelectuais dos pagãos. Uma boa filosofia deve existir, se não por outra razão, por ser necessário dar uma resposta à má filosofia”.[1]






[1] Extraído e adaptado de Norman L. Geisler; Paul D. Feinberg, Introdução à Filosofia: Uma Perspectiva Cristã. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 77-8.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O cristão reformado e a filosofia

Josivaldo de França Pereira

O que é ser um cristão reformado? Qual a relação dele com os sistemas filosóficos e a necessidade de uma filosofia reformada hoje?
O cristão reformado
Houve tempo em que o adjetivo “cristão” era um termo cheio de significado e importância. Era uma designação que não estava ligada à religião de alguém, mas à identidade que um indivíduo tinha com a pessoa de Cristo. O termo sofreu desgaste com o passar dos anos. Hoje, cristão é todo aquele que diz professar o cristianismo, ou que esteja filiado a uma igreja ou religião que se denomine cristã.  “Reformado” é um vocábulo que tenta salvaguardar o verdadeiro sentido de ser cristão. No entanto, até mesmo o adjetivo “reformado” vem sofrendo desgastes. Segundo Herman Hanko,
É comumente conhecido que a palavra “reformado” passou a ter uma variedade de significados tão grande em nossos dias, e que de fato, ela passou a não significar nada. Há igrejas que se denominam “reformadas”, mas que estão tão longe de serem reformadas quanto o leste está do oeste. Elas são incapazes de descrever o que a fé reformada é de fato. Até mesmo pior do que isto, há igrejas que se denominam “reformadas”, mas que além de não serem reformadas, verdadeiramente têm se tornado inimigas e oponentes da fé reformada.[1]
O que não é um cristão reformado? Não é um cristão reformado quem ensina que o evangelho é um convite para que todas as pessoas sejam salvas. Não é um cristão reformado quem declara que o evangelho expressa a boa vontade, o anseio e o desejo de Deus de salvar todos aqueles que ouvirem o evangelho. Não é um cristão reformado quem afirma que Cristo está de braços abertos suplicando e implorando a todos para virem a ele e aceitarem-no. A fé reformada não é “decisionismo”, “convidacionismo” e uma “oferta” para todos.
A fé reformada não ensina que é possível ao ser humano resistir o chamado eficaz do Espírito Santo ou mesmo restringir o Espírito de completar sua obra. Um ser humano não consegue – com êxito – continuar no caminho da incredulidade, do pecado e do inferno apesar dos esforços do Espírito Santo. Não é um cristão reformado quem defende que uma vez filho de Deus não significa necessariamente sempre filho de Deus. A fé reformada não ensina que eu poderia ser filho de Deus hoje, estar perdido amanhã e talvez uma semana depois ser salvo novamente, e um mês depois, mais uma vez estar a caminho da perdição. Não é um cristão reformado quem afirma que Deus ama a todos e Cristo morreu por todos. “A palavra ‘reformado’ veio da reforma de Calvino. A genialidade da reforma de Calvino é que esta foi uma reforma de doutrina, de adoração e governo da igreja”.[2]
O que é um cristão reformado (ou simplesmente um reformado)? Augustus Nicodemus Lopes sumariza bem: “Por ‘reformado’ entendo aquele que adere a uma das grandes confissões reformadas produzidas logo após a Reforma protestante no século XVI, aos cinco grandes pontos dessa Reforma, que são Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fides, Solus Christus e Soli Deo Gloria a aos chamados ‘Cinco Pontos do Calvinismo’, resumidos no acrônimo TULIP (Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e Perseverança final)”.[3]
O cristão reformado e sua relação com os sistemas filosóficos
Há pelo menos dois pontos negativos que o cristão reformado deve ter em mente ao se aproximar da filosofia. O primeiro deles é que não existe sistema filosófico completo e absoluto. O segundo é o perigo em aliar a fé cristã muito estritamente com qualquer sistema filosófico individual.
Algo que se destaca em nosso panorama de mais de mil anos de debates entre os filósofos e os cristãos no mundo ocidental, é o de nenhum sistema filosófico ter-se revelado completo e perfeito. Na verdade, podemos dizer que sistemas, como por exemplo o idealismo absoluto, que tem feito as maiores reivindicações quanto a serem abrangentes e completos, são precisamente os que mais deixam a desejar. Vez ou outra, no decorrer dos séculos, alguém surge com uma ideia alegando veracidade, desenvolve-a sob a forma de um sistema que, segundo se pensa, é capaz de explicar todas as coisas, aclamada como a chave para se desvendar todos os mistérios. Cedo ou tarde seus defensores se veem obrigados a negar a existência de tudo quanto a “nova” ideia não consegue explicar, ou admitir que ela não é bem tudo quanto imaginavam que fosse. O resultado é a desilusão, e as pessoas mais uma vez saem em busca de outra novidade.
Sproul, em sua peregrinação pessoal durante a juventude, admite que encontrou opiniões valiosas em Spinoza, Kant, Sartre e outros, mas nenhum deles parecia ter uma visão coerente da vida e do mundo. Os próprios filósofos eram seus melhores críticos. Hume criticou Locke; Kant criticou Hume; Hegel criticou Kant, e assim por diante. Não surgiram quaisquer “resultados seguros” mediante as especulações intelectuais.[4]
Mas isto não quer dizer que a filosofia não tenha valor para o cristão reformado. É evidente que tem. O estudo da história da filosofia fez com que Sproul conhecesse virtualmente toda alternativa séria ao cristianismo gerada pelo mundo. Ele começou a apreciar a falência das perspectivas seculares. O estudo da filosofia forneceu elementos de grande valor para uma análise crítica que foram de enorme utilidade para ele. Quanto mais ele estudava filosofia tanto mais confiável e satisfatório se tornava o cristianismo.[5]
Segundo Geisler e Feinberg, compreender e apreciar a filosofia ajudará a entender a sociedade em que vivemos; os elementos críticos e aquilatadores da filosofia podem ajudar a libertar a pessoa das garras do preconceito, do provincialismo e do raciocínio pobre e, a despeito da natureza abstrata de grande parte da filosofia, ela pode ser útil na vida diária.[6] E mais:
Uma vez que toda a verdade é verdade de Deus e já que a filosofia é uma busca da verdade, então a filosofia contribuirá para nossa compreensão de Deus e do mundo que ele criou. Além disso, a história demonstra que argumentos e conceitos filosóficos têm desempenhado um grande e importante papel no desenvolvimento da teologia cristã. Embora nem todos os teólogos concordem quanto ao valor ou a pertinência desses argumentos, todos reconhecem que algum conhecimento das raízes filosóficas é necessário para a compreensão da teologia cristã.[7]
Não é possível fazer teologia sem um fundamento filosófico.[8] Entretanto, aliar a fé cristã muito estritamente com qualquer sistema filosófico pode ser perigoso. Brown salienta que os perigos de alinhar o cristianismo muito estritamente com um sistema ou ideia filosófica específica têm pelo menos dois aspectos. De um lado, a fé cristã tem de passar por uma manipulação a fim de se encaixar no sistema escolhido. Algumas coisas precisam ser esticadas, ao passo que outras necessitam ser cortadas, ou pelo menos, discretamente negligenciadas. Por outro lado, quando uma falha é detectada no sistema, dá-se a impressão de que a fé cristã esteja entrando em colapso juntamente com o sistema ao qual foi associada. Não é de se admirar, segundo Brown, que em muitos círculos filosóficos atuais suponha-se que, porque os antigos argumentos aristotélicos e racionalistas em prol da existência de Deus caíram por terra, todas as bases para a crença racional em Deus tenham entrado em colapso com eles.[9]
A necessidade de uma filosofia reformada hoje
Por “necessidade de uma filosofia reformada hoje” não significa que uma filosofia de origem reformada deva ser inventada, posto que já existe. Ela precisa, na realidade, ser resgatada, pois é praticamente desconhecida em nosso país. A filosofia reformada foi criada pelo renomado teólogo, filósofo e estadista holandês Abraham Kuyper (1837-1920), pensador original e enciclopédico. Foi desenvolvida por Herman Bavinck (1854-1921) que lançou, juntamente com Kuyper, os fundamentos da filosofia reformada, Herman Dooyeweerd (1894-1977), o grande sistematizador da filosofia, mestre da crítica transcendental, pai da filosofia cosmonômica, Dirk H. Theodor Vollenhoven (1892-1978), Hendrik G. Stoker (1899-1994) e Cornelius Van Til (1895-1987).[10]
A filosofia reformada é necessária hoje por algumas razões. Em primeiro lugar, ela está fundamentada na Bíblia e enaltece o caráter do verdadeiro Deus. Para a filosofia reformada a Bíblia é a Palavra de Deus, nossa única regra infalível de fé e prática, a revelação especial que nos permite ver o mundo como o próprio Deus o vê. A noção reformada da revelação não só dá amplo espaço para o pensamento filosófico, como também é o único solo adequado para o florescimento de uma verdadeira filosofia cristã. Sendo assim, a filosofia medieval não nos serve. Agostinho, naquilo que ele é autenticamente evangélico, e verdadeiro precursor do pensamento reformado, é maravilhoso, porém sua filosofia cristã foi bastante afetada pelo platonismo grego. Tomás de Aquino também não nos serve porque na filosofia dele a fé cristã é submetida a um desconfortável processo de adaptação ao aristotelismo. Em Aquino Deus não se distingue de sua criação. O elemento transcendente na filosofia tomista não é Deus, mas o “Ser” que se acha mecanicamente ligado ao cosmos e dependente dele.[11]
A segunda razão pela qual a filosofia reformada se faz necessária hoje é por sua marca, ou seja, seu pensamento antitético. A filosofia reformada é uma filosofia na contramão e contracorrente de uma intelectualidade que se afastou de Deus. Gouvêa explica:
A filosofia não-cristã sofre de um racionalismo ingênuo desde suas origens helênicas, e a intelectualidade abraçou definitivamente a utopia do ideal científico e o mito da objetividade empírica, a falácia autofágica dos pressupostos humanistas, como a autonomia do pensamento, que implica na rejeição de toda autoridade e na absolutização do juízo crítico. Hoje temos assistido à consumação inevitável de tais compromissos anticristãos. O homem se mostra confiante na sua racionalidade a qual supõe potencialmente onisciente, adorando-se como criador e provedor, arquiteto e intérprete do universo, centro de toda a realidade, e o sentido do mundo e da existência. Ele ouve a voz que lhe sussurra: “Certamente não morrerás; pelo contrário, tu serás como o próprio Deus!” (Gn 3.4-5).[12]
Em terceiro lugar, a filosofia reformada é necessária hoje por causa do calvinismo integral. O calvinismo integral possui uma visão completa da vida e do mundo. Tudo na vida é religião para o pensador calvinista. O calvinismo é uma biocosmovisão completa que envolve todos os aspectos da vida e das áreas do conhecimento humano. Um verdadeiro calvinista não se satisfaz apenas com uma teologia reformada. Ele busca uma filosofia igualmente reformada, bem como uma ciência, uma arte, uma cultura, uma política, etc., reformadas. Todas as áreas do conhecimento podem e devem ser exploradas a partir de pressupostos cristãos reformados.[13] Deus é absolutamente soberano sobre toda criação como o é em todos os aspectos da realidade e esferas da vida humana. Como disse Kuyper: “Não existe sequer um centímetro de nossa natureza humana do qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame ‘Meu!’”.[14] O conceito central e fundamental do pensamento reformado é a soberania absoluta de Deus sobre tudo e todos.





[1] Herman Hanko, O que significa ser reformado? In: http://www.cprf.co.uk/languages/portuguese_meanstobereformed.html#.XDO71tQrJkh. Acesso em Janeiro de 2019.
[2] Idem.
[3] Augustus Nicodemus Lopes, O que é um cristão reformado? In: https://www.youtube.com/watch?v=bMSivDqr6oo. Acesso em Janeiro de 2019. Para uma análise mais detalhada do que é ser um cristão reformado, consulte Herman Hanko.
[4] R. C. Sproul, Razão para crer. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1991, p. 12.
[5] Sproul, p. 12.
[6] Norman L. Geisler; Paul D. Feinberg, Introdução à filosofia: Uma perspectiva cristã. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 20-21.
[7] Idem, p. 22.
[8] Para argumentos bíblicos a favor do estudo da filosofia, consulte Geisler e Feinberg, p. 77-8.
[9] Colin Brown, Filosofia e fé cristã. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 231.
[10] Cf. Ricardo Quadros Gouvêa, Calvinistas também pensam: Uma introdução à filosofia reformada. In: Revista Fides Reformata, Vol. 1, janeiro-junho 1996, p. 51-52.
[11] Idem, p. 50.
[12] Idem, p. 48-49.
[13] Consulte Abraham Kuyper, Calvinismo. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014. O livro todo é excelente.
[14] Frase proferida por Abraham Kuyper no discurso inaugural da Universidade Livre de Amsterdã em 1880.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A serpente de bronze: Símbolo da nossa redenção

(Nm 21.4-9)

Josivaldo de França Pereira

Os israelitas partiram do monte Hor (região de Moabe), pelo caminho do mar Vermelho, a rodear a terra de Edom, mas o povo ficou impaciente no caminho. Enquanto seguiam para o norte e para o leste, ao lugar por onde deviam entrar na Terra Prometida, proferiram os israelitas palavras duras contra Deus e Moisés por causa do alimento fastidioso (o maná) e da falta de água. E o povo falou contra Deus e Moisés: “Por que nos fizeste subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil”. Um comentário disparatado acerca do pão do céu (Sl 78.24,25; 105.40; cf. Jo 6.31). “Essa décima primeira murmuração a ser destacada seguiu a mesma linha de raciocínio das anteriores: o fértil Egito fora deixado para trás, e os filhos de Israel tinham ficado retidos em um deserto estéril e miserável; o suprimento alimentar era muito escasso; não havia água potável; e o maná se tornara enjoativo para eles”.[1]
Então, o Senhor mandou entre o povo serpentes abrasadoras (venenosas), que mordiam o povo e cuja picada era ardente e mortal; e morreram muitos de Israel. O juízo de Deus foi imediato. Yahwéh puniu a impaciência e a falta de confiança de Israel enviando serpentes abrasadoras, instrumentos de seu julgamento sobre um povo rebelde. Todos os casos de murmuração de Israel foram enfrentados com algum tipo de julgamento. Yahwéh não tolerava tão profunda ingratidão por parte de seu povo. Esse ataque com serpentes foi atribuído diretamente a Deus e associado à última murmuração do povo. Algumas passagens da Bíblia referem-se a esse evento histórico que, assim como fala do julgamento de Deus sobre o pecado, também fala da provisão para livramento e cura. Moisés recordou como o Senhor havia guiado seu povo através de um terrível deserto cheio de serpentes ardentes (Dt 8.15). Paulo insiste com os cristãos de Corinto para não tentarem Cristo como seus ancestrais tinham tentado a Deus no deserto e foram destruídos por serpentes (1Co 10.9).
Os israelitas reconheceram seu pecado de murmuração e se arrependeram, procurando o fim da praga e a cura pelos que tivessem sido picados pela serpente. O povo veio até Moisés, confessando: “Havemos pecado, porque temos falado contra o SENHOR e contra ti; ora ao SENHOR que tire de nós as serpentes. Então, Moisés orou pelo povo”. Seja como for, esta é a última vez em que se menciona que os israelitas murmuraram a respeito do seu alimento e desejou as iguarias do Egito. O Senhor Deus disse a Moisés para que fizesse uma serpente de bronze (cobre, cf. Dt 8.9) e a colocasse sobre uma haste, e todo mordido que olhasse para ela seria curado e viveria. A confecção da serpente de bronze, sua colocação no meio do povo e a salvação que foi experimentada vinham completa e inteiramente de Deus.
Mas por que fazer uma serpente e por que fazê-la de bronze/cobre, uma vez que em Israel as serpentes eram impuras e personificavam o pecado? (cf. Gn 3; Lv 11.41,42). Segundo Wenhan, “Pode ser que tenha sido escolhido o cobre não apenas porque a sua coloração combinava com a inflamação causada pelas mordeduras, mas porque o vermelho é a cor que simbolizava a expiação e a purificação”.[2] Van Groningen destaca: “O próprio meio empregado para castigar, punir e trazer a morte aos rebeldes é usado por Yahwéh para trazer cura e vida. As serpentes eram um meio prontamente disponível para julgamento; Yahwéh usou a mesma serpente, contrariando a seu comportamento usual e esperado, como símbolo de libertação, de cura e de vida”.[3] É o princípio da identificação: serpente com serpente; Cristo com o ser humano; a cor do metal/o sangue de Cristo.
Uma vez cumprida a ordem divina (por Moisés em fazer a serpente de bronze, pondo-a sobre uma haste, e pelo povo mordido em olhar para ela) os efeitos desejados foram obtidos. A antiga serpente (Satanás) era a causa da morte temporal e espiritual. Jesus Cristo, “em semelhança de carne pecaminosa” (Rm 8.3) foi feito “pecado por nós” (2Co 5.21), e assim cumpriu, conforme ele mesmo disse a Nicodemos, o tipo da serpente de bronze: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3.14,15).
Em ambos os casos (Nm 21 e Jo 3), a morte ameaça como castigo do pecado; em ambos os casos é Deus mesmo que, em sua graça soberana, provê um remédio; em ambos os casos o remédio consiste em algo (ou alguém) que deve ser levantado à vista de todos; em ambos os casos os que, com coração crente, olham para o que (ou, aquele que) é levantado, são curados. De acordo com Hendriksen, “Aqui [em Jo 3.14,15], como sempre ocorre, o Antítipo transcende enormemente o tipo. Em Números o povo se depara com uma morte física; em João a humanidade se vê sob a pena de morte eterna por causa do pecado. Em Números o que é levantado é o tipo; mas este tipo – a serpente de bronze – não tem poder para curar. Aponta para o Antítipo, Cristo, que é quem possui esse poder. Em Números sublinha-se a cura física: quando alguém fixava os olhos na serpente de bronze, era-lhes devolvida a saúde. Porém, em João o que se concede ao que deposita sua confiança naquele que foi levantado é vida espiritual, vida eterna”.[4]
Van Groningen conclui:
O significado messiânico da serpente de bronze, portanto, deve ser visto na palavra de julgamento e de redenção de Yahwéh cumprida no meio de seu povo. Uma obra messiânica, em seu aspecto mais amplo, foi realizada. O que Yahwéh fez por meio de serpentes ardentes e da serpente de bronze, de um modo simbólico e ao mesmo tempo real, aponta definitiva e realisticamente para o cumprimento da promessa de redenção do veneno do pecado (instigado por Satanás e a serpente; cf. Gn 3.1-9) e a realização da vida, rica e completa, num paraíso renovado e recuperado.[5]
O salário do pecado é a morte (cf. Rm 6.23; 1Co 10.9); o arrependimento é uma atitude que agrada a Deus (cf. Sl 51.17); a graça é o antídoto de Deus contra o veneno do pecado (cf. Rm 6.23); a fé é o “olhar” que salva (cf. Is 45.22; Jo 3.14,15; Hb 12.2).
A serpente de metal foi preservada pelos filhos de Israel e levada à terra de Canaã; recebeu o nome de Neustã (peça de bronze) até que finalmente foi destruída pelo rei Ezequias, depois de ter sido transformada em um objeto de adoração idólatra (2Rs 18.4).





[1] Russell N. Champlin, O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 684.
[2] Gordon J. Wenhan, Números: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 165.
[3] Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 219-20.
[4] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 149. Itálicos do autor.
[5] Van Groningen, p. 220.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Os saduceus e a ressurreição

Josivaldo de França Pereira

O sentido da palavra “saduceus” usualmente é visto como originado de Zadoque, um sumo sacerdote dos tempos de Davi e Salomão. Assim, os saduceus seriam os sacerdotes, descendentes ou adeptos de Zadoque. Na época do Novo Testamento eles formavam um forte partido político-religioso (líderes no Templo e Sinédrio) composto por quase exclusivamente dos elementos mais ricos da população, incluindo sacerdotes, comerciantes e aristocratas. No livro de Atos os saduceus são chamados de “seita” (At 5.17). Desse modo, "saduceus" designa um grupo, seita ou partido dentro do judaísmo palestiniano antes do século I e durante boa parte dele.[1]
O substantivo “saduceus” não existe no Antigo Testamento. Ele ocorre catorze vezes no Novo Testamento, e apenas nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e no livro de Atos. Também não temos nenhuma ocorrência do termo no singular. Sempre que são citados na Bíblia os indivíduos estão em grupo. Os saduceus nunca são mencionados nas epístolas, sejam as de Paulo, do autor aos Hebreus, Tiago, Pedro, Judas, João ou no Apocalipse. João, por sinal, não tem interesse algum em citar os saduceus em seus escritos (Evangelho e demais livros).
A Bíblia sempre se refere aos saduceus de forma negativa. Na primeira referência a eles no Evangelho de Mateus, é dito: “Vendo ele [João Batista], porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Mt 3.7). É que João detectou o falso arrependimento e demagogia deles. O profeta estava familiarizado com as víboras do deserto – astutas e enganosas. Não é Satanás também chamado de serpente e enganador (Ap 12.9; 20.2,3)? Não seriam eles seus instrumentos?
Mateus, Marcos e Lucas, cada um deles afirma uma única vez que os saduceus dizem não haver ressurreição (Mt 22.23; Mc 12.18; Lc 20.27). Lucas, no livro de Atos, igualmente observa que os saduceus declaram não haver ressurreição, acrescentando ainda: “nem anjo, nem espírito” (At 23.8), isto é, acreditavam que tudo se acaba por aqui. O embate dos saduceus com Jesus gira em torno da doutrina da ressurreição dos mortos, contudo, o Mestre não deixa de tratar com eles a respeito de anjos e também de espíritos, visto que os saduceus negavam a imortalidade da alma:
23 Naquele dia, aproximaram-se dele alguns saduceus, que dizem não haver ressurreição, e lhe perguntaram:
24 Mestre, Moisés disse: Se alguém morrer, não tendo filhos, seu irmão casará com a viúva e suscitará descendência ao falecido.
25 Ora, havia entre nós sete irmãos. O primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão;
26 o mesmo sucedeu com o segundo, com o terceiro, até ao sétimo;
27 depois de todos eles, morreu também a mulher.
28 Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será ela esposa? Porque todos a desposaram.
29 Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.
30 Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.
31 E, quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou:
32 Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos.
33 Ouvindo isto, as multidões se maravilhavam da sua doutrina.
(Mt 22.23-33; cf. Mc 12.18-27; Lc 20.27-40).
Geralmente os saduceus estão acompanhados dos fariseus no Novo Testamento (cf. Mt 3.7; 16.1,6; At 23.6,7), motivo pelo qual João Batista e Jesus chegaram a repreendê-los numa mesma sentença (Mt 3.7; 16.4,11,12). Todavia, em Mateus 22.23-33 e paralelos eles estão sozinhos porque os fariseus não compactuavam com o pensamento antirressurreição dos saduceus (cf. At 23.8).
Alguns saduceus se aproximaram de Jesus não com o intuito de aprenderem, mas de tentá-lo (cf. Mt 16.1). Esta seita tinha o Pentateuco de Moisés (a lei mosaica ou Torá) em maior valor que os demais livros do Antigo Testamento e, por isso, eles citam a lei do matrimônio levirato de Deuteronômio 25.5,6. Esse mandamento exigia que o cunhado mais próximo da viúva se casasse com ela, caso o irmão dele tivesse morrido sem deixar filhos, a fim de que o primogênito do novo casamento fosse contado como filho do morto e não se perdesse sua linhagem. Desobedecer a essa lei seria uma ofensa grave (Dt 25.7-10; cf. Gn 38.8-10).[2]
Os saduceus aventam uma hipótese absurda para mostrar quão absurda é, do ponto de vista deles, a crença na ressurreição do corpo. “Na ressurreição, de qual dos sete será ela esposa? Porque todos a desposaram”, ironizam eles. Jesus assevera que os saduceus erram por não conhecer as Escrituras e nem o poder de Deus. Erram em relação às Escrituras porque estas não se limitam apenas ao Pentateuco, e em relação ao poder de Deus porque este também é revelado nos cinco livros de Moisés.
Na ressurreição, ou seja, na vida futura, o matrimônio não será mais necessário, pois os ressurretos serão como os anjos no céu (não se casam nem se dão em casamento); anjos que os saduceus também negavam (cf. At 23.8), apesar de o Pentateuco ensinar a existência deles (Gn 19.1,15; 28.12; 32.1). Embora os saduceus ridicularizassem a doutrina da ressurreição, Jesus não se omitiu em continuar a instruí-los no tema: “E, quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos” (cf. Êx 3.6). Note a expressão “Eu sou” (não “Eu fui” ou “Eu era”) e o tríplice “o Deus de...”, mencionado separadamente em conexão com cada um dos três patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó) para enfatizar o relacionamento pessoal de Deus com cada um deles. Posto que Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos, conclui-se que Abraão, Isaque e Jacó vivem e estão aguardando uma ressurreição gloriosa.[3]
Os saduceus, por negarem a doutrina da ressurreição dos mortos (em razão da influência gnosticista grega), encarceraram os apóstolos por estarem proclamando a ressurreição de Jesus como fato já realizado e como garantia da ressurreição de outras pessoas (At 3.1-4.31).
O Sinédrio, o mais alto tribunal jurídico e religioso dos judeus, era formado por fariseus e saduceus. Paulo está perante o Sinédrio para uma de suas defesas. Por conhecer ambos os partidos e as diferenças doutrinárias no Sinédrio, o apóstolo sabia que tinha de semear a discórdia entre os fariseus e os saduceus. Paulo percebeu que se eles se unissem na acusação contra ele de perturbar a pax romana, ele perderia a proteção do comandante Lísias. Em resumo, Paulo estava lutando por sua vida.
Sabendo Paulo que uma parte do Sinédrio se compunha de saduceus e outra, de fariseus, exclamou: Varões, irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; no tocante à esperança e à ressurreição dos mortos sou julgado.
Ditas estas palavras, levantou-se grande dissensão entre fariseus e saduceus, e a multidão se dividiu.
Pois os saduceus declaram não haver ressurreição, nem anjos, nem espírito; ao passo que os fariseus admitem todas essas cousas.
Atos 23.6-8.
Com a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., os saduceus deixaram de existir.






[1] Para outras sugestões do nome e origem dos saduceus, consulte J. Julius Scott, Jr., Saduceus. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. IV. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 327-29.
[2] Para uma aplicação interessante da lei do matrimônio levirato, leia Rute 4.1-8.
[3] De acordo com Hebreus 11.19, Abraão cria com toda certeza na possibilidade de uma ressurreição física.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O discurso de Paulo em Atenas

Josivaldo de França Pereira


O discurso de Paulo em Atenas (At 17.22-31) está dividido em três partes: introdução
(vs.22b,23), conteúdo (vs.24-28) e aplicação (vs.29-31); e duas verdades principais estão em evidência nele: a doutrina de Deus e a doutrina do ser humano.
A doutrina de Deus
Paulo encontra seu texto, seu ponto de contato com os areopagitas, na dedicatória de um altar que ilustra a religiosidade intensa dos atenienses: AO DEUS DESCONHECIDO. Por que um altar com essa inscrição? De quem foi a ideia? A melhor resposta que obtive é a de John MacArthur. Diz ele:
Na verdade, havia muitos desses [altares] em Atenas. Seiscentos anos antes da época de Paulo, Atenas havia sido assolada por uma terrível praga. Centenas adoeceram e estavam morrendo, e a cidade entrou em desespero. Um famoso poeta de Creta, chamado Epimênides, elaborou um plano para pacificar quaisquer deuses que estivessem causando a praga. Subiu ao Areópago e soltou um rebanho de ovelhas. O plano era deixar as ovelhas vagarem livremente pela cidade. E, quando estas se deitassem, seriam sacrificadas ao deus do templo mais próximo. A suposição era que os deuses irados atrairiam para si as ovelhas. Entretanto, quando as ovelhas foram soltas, muitas acabaram se deitando onde não havia qualquer templo por perto. Epimênides, portanto, decidiu sacrificar as ovelhas e erigir altares onde quer que elas houvessem deitado, somente para ter certeza de que nenhuma divindade desconhecida fosse esquecida. Visto que eram deuses sem nome, as pessoas erigiram altares e santuários “AO DEUS DESCONHECIDO”. Sem dúvida, foi um desses altares que Paulo avistou.[1]
Paulo usa, portanto, a inscrição de um altar como ponto de contato com os atenienses que, naquele local de oferendas, cultuavam um deus desconhecido. Contudo, ao contrário da “teologia” ateniense, o Deus verdadeiro só pode ser verdadeiramente adorado desde que seja verdadeiramente conhecido. Segundo Calvino, é muito melhor ter o conhecimento de Deus do que adorar sem conhecê-lo, pois Deus não pode ser adorado reverentemente a menos que primeiro seja conhecido.[2]
 Na sua instrução sobre a doutrina de Deus, Paulo afirma, em primeiro lugar, que Deus criou o universo com tudo o que nele contém; ele é Senhor do céu e da terra. Essa é a terminologia da revelação bíblica (cf. Gn 14.19,22; Sl 24.1; Is 42.5). O apóstolo não faz nenhuma concessão ao paganismo helenista; nenhuma distinção entre o Ser Supremo e um “demiurgo” ou mestre de obras que deu forma ao mundo.
Em segundo lugar, Deus não habita santuários feitos por mãos humanas (cf. 1Rs 8.27). Estêvão, em sua defesa perante o Sinédrio, faz essa afirmação em relação ao templo de Jerusalém, motivo de seu martírio. O paganismo mais elevado, de fato, reconhecia que nenhuma estrutura material podia abrigar a natureza divina. No entanto, as finalidades da terminologia de Paulo são bíblicas e não clássicas.
Em terceiro lugar, Deus não depende do ser humano e de suas ofertas (cf. Sl 50.8-13). As pessoas é que dependem totalmente dele. ”Essa é precisamente a ênfase de Paulo, quando ele declara que, se Deus aceita culto do ser humano, não é porque não pode passar sem ele. Longe de ter suprida alguma necessidade pelo ser humano, é ele quem supre toda necessidade deste”.[3]
A doutrina do ser humano
Como o Criador de todas as coisas em geral é o Criador da raça humana em particular, Paulo passa da doutrina de Deus para a doutrina do homem. Em primeiro lugar, o ser humano origina-se de um só indivíduo. O apóstolo afirma que a raça humana tem uma só origem, criada por Deus e descendente de um ancestral comum – Adão. Portanto, diante do Senhor Deus, todas as pessoas se encontram no mesmo nível.
Em segundo lugar, a habitação terrena do ser humano e o curso natural das estações foram preparados para o seu bem-estar. A terra, conforme Gênesis 1, foi formada e adequada para ser a casa do homem, antes que este fosse introduzido como seu morador. Além disso, parte da formação e adequação do lar do ser humano na terra consistiu no preparo de regiões habitáveis que servissem de lugar para ele viver, e na determinação de “tempos”[4] para sua habitação (cf. Dt 32.8).
Em terceiro lugar, o propósito de Deus em fazer esses preparativos foi que as pessoas pudessem procurá-lo e achá-lo – um anseio muito natural, porque as pessoas provêm dele, e ele as ajuda em satisfazê-lo, estando próximo delas. De acordo com Bruce, é aqui que a terminologia do discurso mostra maiores afinidades helenistas, mas para uma audiência diferente Paulo poderia ter expressado o mesmo pensamento, dizendo que o ser humano é criatura de Deus, feito à sua imagem. Para sua audiência ateniense ele fundamenta sua afirmação com duas citações de poetas gregos [Epimênides e Aratos] que pressupõem o relacionamento do homem com o Ser Supremo.[5]
Os resultados do discurso de Paulo 
Paulo termina seu discurso com um chamado ao arrependimento, pois Deus não levara em conta os tempos na ignorância do pecado (cf. Rm 3.25), mas que o juízo de Deus viria por meio de um varão, Jesus, a quem ressuscitou dentre os mortos.
Quando ouviram falar da ressurreição dos mortos, alguns creram, e outros disseram que o ouviriam noutra ocasião. Nesse ínterim, Paulo se retira do meio deles, e Lucas conclui: “Houve, porém, alguns homens que se agregaram a ele e creram; entre eles estava Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e, com eles, outros mais” (At 17.34).
É interessante que nos relatos das três viagens missionárias de Paulo, Lucas inclui um discurso proferido em cada uma delas. Na primeira jornada, temos o testemunho do apóstolo Paulo em Antioquia da Pisídia (At 13.16-41); na segunda, o discurso do apóstolo no Areópago (At 17.16-31) e, na terceira viagem, a fala de despedida de Paulo aos presbíteros de Éfeso em Mileto (At 20.17-38).





[1] John F. MacArtuhr Jr., Com Vergonha do Evangelho: Quando a igreja se torna como o mundo. São José dos Campos: Fiel, 1997, p. 169.
[2] John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles. Vol. 2. Grand Rapids: Baker Books, 2003, p. 157. Veja também Héber Carlos de Campos, O Pressuposto Básico da Verdadeira Adoração. In: Jornal O Presbiteriano Conservador, edição novembro/dezembro, 1996.
[3] F. F. Bruce, Paulo, o apóstolo da graça: Sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2014, p. 232.
[4] Segundo Bruce (p. 232), os “tempos” devem ser identificados ou com a sequência de semeadura e colheita (como no discurso de Listra) ou com as épocas da história humana (como nas visões de Daniel).
[5] Idem, p. 233. Consulte John MacArthur, Paulo no Areópago. In: Com Vergonha do Evangelho, p. 159-75; Cornelius Van Til, Paulo em Atenas. Brasília: Monergismo, 2016. In: Kindle Cloud Reader.