quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Rev. José Manoel da Conceição: O Número 1 do Brasil

Josivaldo de França Pereira

No dia 17 de dezembro de 1865 era ordenado, pelo recém-instalado Presbitério do Rio de Janeiro, o primeiro pastor presbiteriano brasileiro, o paulista filho de portugueses Rev. José Manoel da Conceição (1822-1873). Conhecido como o padre protestante, ele não foi apenas o primeiro pastor presbiteriano brasileiro, mas o primeiro pastor brasileiro. Lamentamos que as igrejas evangélicas brasileiras não façam desta data o dia nacional do pastor brasileiro. A maioria das igrejas do Brasil prefere comemorar o dia do primeiro pastor brasileiro de suas denominações.
Conceição era sacerdote católico romano quando se converteu ao evangelho. Contudo, não foi por isso que ele era chamado pelos seus contemporâneos e entrou para a história como o Padre Protestante. É que, mesmo antes de deixar a batina, ele já aborrecia os bispos católicos ao estimular seus párocos a lerem a Bíblia. Quando o Rev. Alexander Blackford (cunhado de Simonton) trabalhava em Brotas, no interior de São Paulo, ouviu falar de certo padre católico romano que lia a Bíblia e manifestava interesse por seus ensinamentos. Blackford fez uma visita de cordialidade ao jovem sacerdote. Essa visita veio a ser o ponto marcante de mudança na vida de Conceição. Convencido de que a igreja romana não era a verdadeira igreja de Jesus Cristo, partiu para o Rio de Janeiro, a fim de se instruir com Simonton, Blackford e Chamberlain. No dia 23 de outubro de 1864, o ex-padre José Manoel da Conceição professava sua fé em Jesus Cristo como seu Redentor e Senhor, tornando-se membro da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. Essas notícias espalharam-se rapidamente e atingiram lugares distantes.
Figura fundamental na expansão do evangelho no território nacional, o Rev. José Manoel da Conceição, além de realizar frequentes cruzadas no Rio e em São Paulo, fazia questão de visitar a população do interior, não passando por nenhuma fazenda ou casa pobre sem orar e ler a Bíblia com os moradores. Através da influência do ex-padre, as antigas paróquias católicas interioranas acabaram se transformando em igrejas evangélicas. Conceição era homem de grande erudição, emotivo e dotado de influência considerável. Pregava com muito zelo e grandes multidões vinham ver e escutar o ex-padre. Faleceu no dia 25 de dezembro de 1873, aos 51 anos de idade, no Rio de Janeiro. Seu túmulo também se encontra no Cemitério dos Protestantes em São Paulo, ao lado do de Simonton.
O padre protestante foi fruto do trabalho dos primeiros missionários presbiterianos norte-americanos que aqui chegaram, a saber, Simonton e seus colaboradores. A conversão de José Manoel da Conceição incentivou o pequeno grupo de missionários a sair por toda parte pregando o evangelho.
Por causa da data de ordenação do Rev. José Manoel da Conceição, no dia 17 de dezembro comemora-se o dia do pastor presbiteriano.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

O vaso do oleiro e a botija quebrada

(Jeremias 18 e 19)

Josivaldo de França Pereira


Um antigo cântico diz:
Eu quero ser, Senhor amado,
Como um vaso nas mãos do oleiro.
Quebra a minha vida e faze-a de novo.
Eu quero ser, eu quero ser, um vaso novo.

Conquanto a intenção do poeta tenha sido o desejo salutar de uma vida mais próxima de Deus, bíblica e teologicamente a letra está incorreta quando enfoca: “Quebra a minha vida e faze-a de novo”.
À luz de Jeremias 18 e 19 aprendemos que vaso quebrado é vaso condenado, e o vaso novo é vaso moldado; aperfeiçoado, melhorado. A massa mole pode ser remodelada, todavia, depois de endurecida no forno, tornando-se um vaso propriamente, quando quebrado, não serve para mais nada, exceto para ser jogado fora. Um vaso quebrado se transforma em cacos destinados ao lixo.
Em Jeremias 18.1-17 Deus ordena o profeta a descer até a casa do oleiro e vê-lo trabalhar, para ilustração da mensagem divina ao povo de Judá e aos moradores de Jerusalém. Chegando lá, Jeremias observa atentamente o oleiro entregue à sua obra. Entretanto, “Como o vaso que o oleiro fazia de barro se lhe estragou na mão, tornou a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe pareceu” (Jr 18.4).

Então, veio a mim a palavra do SENHOR: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? – diz o SENHOR; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel (Jr 18.5,6).

Da mesma forma como um oleiro pode remodelar um vaso mal formado, o Deus soberano poderia remodelar a casa de Israel ou qualquer outra nação para o bem, mas também para o mal, caso não houvesse arrependimento de suas maldades (cf. Jr 18.6-11). Porém, em Jeremias 19 temos outra realidade.
A botija que o profeta Jeremias quebraria representa o juízo definitivo do Senhor contra Judá e os moradores de Jerusalém. Deus manda Jeremias comprar uma botija de oleiro e levar consigo alguns dos anciãos do povo e dos anciãos dos sacerdotes. No vale do filho de Hinom, à entrada da Porta do Oleiro, o profeta apregoaria as palavras que o Senhor lhe dissesse.

Então, quebrarás a botija à vista dos homens que foram contigo e lhes dirás: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Deste modo quebrarei eu este povo e esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se, e os enterrarão em Tofete, porque não haverá outro lugar para os enterrar (Jr 19.10,11).

Jeremias não saberia fazer um vaso, contudo, podia perfeitamente quebrar um. O oleiro, por sua vez, mesmo que pudesse, não quebrava um vaso pronto depois de saído do forno, apenas o refazia, com a massa ainda amolecida. A Bíblia de Estudo de Genebra sintetiza bem o pensamento de Jeremias 19: “Judá, endurecido pelo pecado, não mais pode ser remodelado, mas somente destruído”.[1]
Portanto, com base em Jeremias 18 e 19, devemos pedir ao nosso Deus que nos remodele para sua honra, que nos melhore por sua longanimidade, aperfeiçoando-nos mais e mais em santidade de vida. Não peçamos a ele que nos “quebre” porque seria a mesma coisa de pedir ao Senhor que nos destrua, ou seja, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se.




[1] Bíblia de Estudo de Genebra, p. 882.

domingo, 9 de novembro de 2014

Os Querubins

Josivaldo de França Pereira

Os querubins (seres viventes em hebraico) formam a primeira ordem ou classe distinta de anjos mencionada na Bíblia. São citados pela primeira vez em Gênesis 3.24, quando Adão e Eva foram expulsos por Deus do Paraíso: “E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3.24). Waltke e Fredericks comentam: “Como o querubim angélico em Ezequiel 28.14, cuja tarefa possivelmente fosse bloquear a ascensão de alguém ao cimo do trono (cf. Is 14.13), esses seres chamejantes exercem o papel admoestatório de impedir que os pecadores se assenhoreiem da imortalidade”.[1]
Justiça e graça aparecem lado a lado em Gênesis 3.24.  Por causa do pecado o homem foi expulso do jardim de Deus, mas, por sua graça, a espada flamejante e os querubins impediram o retorno dele, a fim de que não comesse da árvore da vida e vivesse eternamente sob maldição. Além disso, como bem observa Champlin numa referência ao Antigo Testamento, “Devemos lembrar que, na narrativa do livro de Gênesis, os querubins foram postados à entrada do jardim do Éden, impedindo que o homem pecaminoso entrasse. Parece que, no A. T., representam a vindicação e proteção da santidade de Deus e de suas santas instituições. E ao sombrearem o propiciatório, continuavam representando tal proteção”.[2]
As imagens de dois querubins estavam sobre o propiciatório da arca da aliança. O propiciatório era a tampa que ficava em cima da arca. Sobre o propiciatório os dois querubins estendiam suas asas, formando um arco, conforme prescreveu o Senhor a Moisés:

Farás também um propiciatório de ouro puro; de dois côvados e meio será o seu comprimento, e a largura, de um côvado e meio. Farás dois querubins de ouro; de ouro batido o farás, nas duas extremidades do propiciatório; um querubim, na extremidade de uma parte, e o outro, na extremidade da outra parte; de uma só peça com o propiciatório fareis os querubins nas duas extremidades dele. Os querubins estenderão as asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; estarão eles de faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório. Porás o propiciatório em cima da arca; e dentro delas porás o Testemunho, que eu te darei. Ali, virei a ti e, de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do Testemunho, falarei contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel (Êx 25.17-22).[3]

Vê-se, então, que nas diferentes classes de anjos os querubins estão, por assim dizer, mais próximos da glória de Deus. O autor aos Hebreus se refere aos anjos da tampa da arca como “querubins de glória” (Hb 9.5). Segundo Guthrie, “A expressão os querubins de glória é interessante, porque faz mais do que descrever os querubins como sendo gloriosos. A glória (doxa) simboliza a presença de Deus. Os querubins, portanto, faziam lembrar a Deus. Sua posição, assim descrita: com a sua sombra, cobriam o propiciatório revela que são guardas da majestade de Deus”.[4] No entanto, seus rostos não estão virados para cima, como contemplando diretamente a glória do Senhor. Eles ficavam com as faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório.[5]
Um dos melhores comentários que encontrei sobre os dois querubins da arca da aliança é o de Alan Cole. Diz ele:

Estes [os dois querubins] eram, mais provavelmente, esfinges aladas com rostos humanos, a julgar pelas visões de Ezequiel 1 e Apocalipse 4, bem como pelo uso do termo no Egito (embora os querubins sejam mencionados em Gn 3.24, não são descritos). Na Assíria, o karubu (mesma raiz semítica) tem a função de guarda de templo. Em Israel, os querubins simbolizavam os espíritos que ministravam como servos e mensageiros de Deus (Sl 104.3,4) e por isso suas imagens não eram uma violação de [Êx] 20.4, já que ninguém os adorava. Figuras de querubins, bordadas em cores vivas, eram encontradas em toda volta da cortina interior do Tabernáculo (36.35), de modo que sua presença sobre a arca não era uma ocorrência isolada. O Templo de Salomão possuía dois enormes querubins de oliveira, cobertos de ouro, de cinco metros de altura, os quais pairavam sobre a arca (2Cr 3.10).[6]

Em suma, os querubins receberam a incumbência de guardar a entrada do jardim do Éden (Gn 3.14), o próprio Deus está entronizado acima dos querubins (1Sm 4.4; 2Sm 6.2; 2Rs 19.15; 1Cr 13.6; Sl 80.1; 99.1; Is 37.16), cavalga um querubim e voa sobre ele (2Sm 22.11; Sl 18.10; Ez 10). No tabernáculo e no Templo, em cima da arca da aliança havia uma tampa (o propiciatório) com duas imagens de querubins feitas de ouro. Suas asas estavam estendidas sobre a arca e do meio deles o Senhor proferia sua palavra (Êx 25.18-22; Nm 7.89); ou seja, os querubins protegem a santidade de Deus e revelam o poder, a majestade e a glória do Senhor. 





[1] Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Comentários do Antigo Testamento: Gênesis. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 114.
[2] Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 578.
[3] Cf. Êx 37.6-9.
[4] Donald Guthrie, Hebreus: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1984, p. 171. Veja também Champlin, op. cit., p. 578.
[5] Para um estudo muito proveitoso do significado da propiciação (palavra originária do termo propiciatório), consulte J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 163-82.
[6] R. Alan Cole, Êxodo: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 185. Para um estudo detalhado sobre a natureza dos querubins, consulte R. Laird Harris, Querubim. In: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 746-48; Herman Bavink, Dogmática Reformada: Deus e a Criação. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 459.

sábado, 9 de agosto de 2014

Nadabe, Abiú e o fogo estranho

Josivaldo de França Pereira

 
Nadabe e Abiú são os nomes dos dois filhos mais velhos de Arão (cf. Nm 3.2). Ambos estiveram presentes, juntamente com a comitiva de setenta anciãos que subiram ao Senhor, no monte Sinai, e “viram” Deus em sua glória (Êx 24.1,9). Posteriormente foram ordenados sacerdotes (Êx 28.1) e, apesar de contemplarem o Senhor no Sinai, ainda assim transgrediram contra a lei ritual de Deus (cf. Êx 30.9) quando ofereceram fogo estranho perante a face do Senhor, razão pela qual foram mortos pelo fogo santo de Deus (Lv 10.1-8; cf. Nm 26.61).
Segundo T. H. Jones, fogo estranho “pode significar ou fogo ou incenso aceso noutro lugar que não sobre o altar (Lv 16.12), ou então incenso oferecido em ocasião errada (‘o que não lhes ordenara’)”.[1] Jones sugere ainda que Levítico 10.8,9 indique a possibilidade de que a bebedeira tenha sido um elemento nesse pecado.[2] Davis complementa: “Tendo sido vedado a Arão o uso de vinho, quando entrasse no tabernáculo, presume-se que Nadabe e Abiú tivessem violado este preceito, e entrassem à presença de Deus sob a ação do álcool, sofrendo a morte”.[3]
Harrison sumariza bem a história de Nadabe e Abiú quando diz:
Mal tinham terminado as cerimônias da consagração, e os sacerdotes entrado nas suas funções sagradas, e um ato de sacrilégio foi perpetrado pelos filhos mais velhos de Arão, Nadabe e Abiú. O capítulo 9 (de Levítico) mostra a maneira segundo a qual o povo devia aproximar-se de Deus na adoração, e as bênçãos e os benefícios que resultariam. O capítulo 10 torna claro quão rapidamente a retribuição divina veio sobre aqueles que se recusaram a seguir a orientação, e que insistiram, ao invés disto, em seguir um curso independente. O que tão recentemente tinha sido um tempo de felicidade e esplendor para a nação é estragado por uma tragédia desnecessária. A situação ficou sendo ainda mais lastimável por causa da posição privilegiada que estes dois homens tinham desfrutado quando, juntamente com Moisés, com o pai deles, Arão, e setenta dos anciãos de Israel, tiveram licença de ver uma manifestação do Deus de Israel no Monte Sinai (Êx 24.1,10). Os abusos que se permitiram foram de natureza muito séria, visto que foram induzidos pela desobediência.[4]

Qual a mensagem central da história de Nadabe e Abiú? O que aprendemos com o ato profano deles? O apóstolo Paulo, em sua carta aos romanos, diz que tudo quanto outrora foi escrito para o nosso ensino foi escrito (Rm 15.4), significando tanto as experiências positivas quanto as negativas dos homens e mulheres da Bíblia. O mau exemplo de Nadabe e Abiú não pode ser seguido por nós, posto que Deus exige a adoração aceitável com reverência e santo temor (Hb 12.29). Deus não quer ser adorado segundo a nossa imaginação, mas de acordo com os princípios que ele mesmo estabeleceu em sua Palavra. Um verdadeiro adorador é aquele que é buscado por Deus para adorá-lo em espírito e em verdade (Jo 4. 23,24), ou seja, como o Senhor quer.
No século XVII a Assembleia de Westminster sintetizou com precisão o que é um culto segundo Deus:
A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas, o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo, e é tão limitado pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.[5]

Deus é o autor do culto. No Antigo Testamento ele atuou diretamente na criação e organização do culto arquétipo (figura ou modelo do que se realiza no Novo Testamento) de maneira final e efetiva: escolheu, projetou e determinou a construção da arca e do templo, inclusive a indicação do material a ser usado; elegeu sacerdotes oficiantes; prescreveu as vestimentas sacerdotais (até a roupa debaixo deles!); selecionou os animais do sacrifício; marcou o lugar e determinou a localização do templo; o tempo para as celebrações; o modo de celebrar; a posição das pessoas no local sagrado.
No Novo Testamento (e até os nossos dias), Deus escolheu o culto pelo qual o ser humano se achega liturgicamente a ele pela mediação de Cristo, o realizador do pacto, o revelador do Pai, o autor da vida eterna, o doador do Espírito Santo, o mediador do culto.[6]





[1] T. H. J., Nadabe. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 1092. A Bíblia de Estudo de Genebra sugere que talvez Nadabe e Abiú tenham usado brasas de outro lugar que não o altar (Lv16.12; cf. Êx 30.1-9).
[2] Ibidem.
[3] John D. Davis, Dicionário da Bíblia. 10a ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1984, p. 411.
[4] R. K. Harrison, Levítico: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1989, p. 99. Veja também o comentário interessante que Harrison faz de Levítico 10.1,2 na referida obra.
[5] Confissão de Fé de Westminster, XXI, i. Veja também Russel P. Shedd, Adoração Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 7-15.
[6] Cf. Onézio Figueiredo, Culto. São Paulo, 1990, p. 2. Obra não publicada. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Voto Facultativo: Expressão da Verdadeira Democracia

Josivaldo de França Pereira


Fala-se por aí que o Brasil é um país democrático; no entanto, um país onde o povo ainda é obrigado a votar pode ser considerado, de fato, democrático? É claro que não! Nós temos no Brasil menos uma democracia do que aquilo que se poderia chamar de poliarquia, sistema no qual um grupo governa e a maioria da população se limita a escolher entre representantes de elites políticas rivais.
Nestes 500 e poucos anos de descobrimento tivemos – além de séculos de escravidão – mais governos autoritários ou ditatoriais do que instituições realmente democráticas que permitissem o amadurecimento e o fortalecimento de uma consciência política e social. O direito do povo brasileiro de receber informações objetivas e de se expressar livremente através dos meios de cultura e comunicação ainda é uma conquista recente, assim como o direito de votar e de ser votado.
Com relação ao voto, é importante registrar que nas principais democracias representativas o voto é, sempre, facultativo. Constata-se, de fato, uma correlação entre o voto obrigatório e o autoritarismo político. O voto facultativo é, sem dúvida, mais democrático e aufere melhor a vontade do eleitor. Temos convicção de que o voto deve ser encarado como um direito e não como uma obrigação ou dever passível de punição. Em resumo, pode-se dizer que:
a)     O voto é um direito e não um dever;
b)     O voto facultativo é adotado pela maioria dos países desenvolvidos e de tradição democrática;
c)      O voto facultativo melhora a qualidade do pleito eleitoral pela participação de eleitores conscientes e motivados em sua maioria;
d)     A participação eleitoral da maioria decorrente do voto obrigatório é um mito;
e)     É ilusão acreditar que o voto obrigatório possa gerar cidadãos politicamente evoluídos.

Portanto, concluímos que o voto obrigatório é um assalto à verdadeira democracia!  

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Discurso de formatura: 24 anos depois


DD. Senhores:
Presbítero Damocles Perrone Carvalho, representante do SC/IPB e da Junta Regional de Educação Teológica; Rev. Magnus Galeno Felga Fialho, representante do Conselho Diretor do Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição e demais membros; Rev. João Alves dos Santos, paraninfo da turma "Rev. Álvaro Reis"; Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, orador sacro da turma "Rev. Álvaro Reis"; professores do Seminário J. M. C.; amados irmãos, prezados amigos...
Esta noite será um marco inesquecível para nós, formandos. É alegria que queremos compartilhar com todos vós, pois chegamos ao término de alguns anos de estudo como candidatos ao sagrado ministério.
Quando ingressamos no seminário, sonhávamos com este momento. Não que achássemos o estudo que haveríamos de seguir um fardo (apesar de termos tido algumas matérias bem pesadas), mas para que, um pouco mais preparados, pudéssemos, então, servir a igreja de Cristo.
Antes de iniciarmos o curso achávamos até que sabíamos algo e contribuiríamos muito com os professores em classe. Não foi nada disso. Tivemos muito que aprender.
O seminário nos auxiliou grandemente, dando-nos o ensino de que necessitávamos; e como seria impossível em poucos anos ensinar tudo, nos conscientizou do dever de continuarmos aprendendo sempre. O ministério deverá ser, portanto, a extensão do seminário para nós e a lição que ainda não aprendemos em sala de aula.
Uma vez formados exerceremos, em breve, o nosso ministério; porém, para que seja fecundo e frutífero, é necessário que envolva, pelo menos, dois ofícios fundamentais: os ofícios do pastor e do mestre.
Como pastores, apascentaremos o rebanho que o Supremo Pastor, Cristo Jesus, nos confiará. Tomaremos como recomendações as palavras do pastor e apóstolo Pedro, de apascentar o rebanho de Deus, que estará entre nós, com cuidado, não por força, mas voluntariamente: nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de modelo ao rebanho (1Pe 5.2-4).
Como mestres, teremos o compromisso de trazer ao conhecimento da igreja o que ela precisa saber através da Palavra de Deus. E não seremos mestres se antes de tudo não assumirmos, nós mesmos, um compromisso sério com a Escritura Sagrada e com o próprio Deus, de trazermos à luz do entendimento cristão a verdade da qual Ele é o autor.
Ensinaremos a sã doutrina de acordo com a Palavra de Deus e com os princípios da Igreja Presbiteriana do Brasil; Igreja esta que tem as Escrituras Sagradas como única regra de fé e prática e os Símbolos de Westminster como normas confessionais.
Não queremos ensinar nada que venha de nós mesmos e, muito menos, ser inovacionistas na doutrina. O que queremos e faremos é transmitir o ensino observado pelos "pais" reformados. Queremos imitá-los porque foram estes que se voltaram para a Palavra de Deus em uma época quando a igreja havia se desviado da verdade. Temo-los como "pais" porque nos consideramos seus "filhos". E, como filhos, possuiremos a herança cristã que, como por um testamento, nos foi confiada. Somos os herdeiros da Reforma, e, como tais, desejamos transmitir às nossas igrejas o melhor do pastorado e ensino da Reforma.
Neste instante, restam-nos ligeiros agradecimentos, mas não sem valor. Agradecemos aos pais, irmãos, esposas, noivas, namoradas e demais familiares pela compreensão e incentivo que nos deram durante o tempo de estudo. Às igrejas, nas quais trabalhamos e das quais somos membros, pelas orações constantes em nosso favor. Finalmente, porém não em último lugar, ao Deus Pai, que nos escolheu antes da fundação do mundo para o ministério da Palavra. Ao Deus Filho, pela redenção imerecida. Ao Deus Espírito Santo, pela vivificação e restauração de nossas almas que outrora estavam mortas e perdidas.
De nossa parte compete a renúncia do próprio "eu" e, se necessário, a entrega da própria vida para cumprirmos a tarefa para a qual fomos chamados. As palavras do apóstolo Paulo aos anciãos da igreja de Éfeso, em Atos 20.24, serão a marca distintiva desta nossa missão: "Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus".
Paulo não considerava a sua própria vida uma possessão preciosa a ser conservada a qualquer custo. O que importava era chegar ao fim de sua carreira, mediante a realização fiel do serviço do qual o Senhor o encarregou na ocasião da sua conversão, a saber: pregar o evangelho da graça de Deus. O chamado para o ministério deverá ser, no seu cumprimento, o nosso mais alto ideal.
Reconhecemos, irmãos e amigos, que a salvação vem de Deus somente. Ele é soberano e nós, como ministros seus, nos colocamos em Suas mãos como nada sendo. A graça divina que nos vocacionou também nos capacitará para esta obra (1 Co 15.10). E por esta mesma graça pessoas serão conquistadas para o reino de Deus através de nossa pregação.
Quanto ao mais, oramos para que o Espírito Santo nos apresente perante Deus aprovados, como aquele obreiro que "não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade" (2Tm 2.15).


Bacharelando Josivaldo de França Pereira - Orador da Turma "Rev. Álvaro Reis"

São Paulo, 07 de julho de 1990, auditório "Rui Barbosa" (Mackenzie).