segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Os saduceus e a ressurreição

Josivaldo de França Pereira

O sentido da palavra “saduceus” usualmente é visto como originado de Zadoque, um sumo sacerdote dos tempos de Davi e Salomão. Assim, os saduceus seriam os sacerdotes, descendentes ou adeptos de Zadoque. Na época do Novo Testamento eles formavam um forte partido político-religioso (líderes no Templo e Sinédrio) composto por quase exclusivamente dos elementos mais ricos da população, incluindo sacerdotes, comerciantes e aristocratas. No livro de Atos os saduceus são chamados de “seita” (At 5.17). Desse modo, "saduceus" designa um grupo, seita ou partido dentro do judaísmo palestiniano antes do século I e durante boa parte dele.[1]
O substantivo “saduceus” não existe no Antigo Testamento. Ele ocorre catorze vezes no Novo Testamento, e apenas nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e no livro de Atos. Também não temos nenhuma ocorrência do termo no singular. Sempre que são citados na Bíblia os indivíduos estão em grupo. Os saduceus nunca são mencionados nas epístolas, sejam as de Paulo, do autor aos Hebreus, Tiago, Pedro, Judas, João ou no Apocalipse. João, por sinal, não tem interesse algum em citar os saduceus em seus escritos (Evangelho e demais livros).
A Bíblia sempre se refere aos saduceus de forma negativa. Na primeira referência a eles no Evangelho de Mateus, é dito: “Vendo ele [João Batista], porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Mt 3.7). É que João detectou o falso arrependimento e demagogia deles. O profeta estava familiarizado com as víboras do deserto – astutas e enganosas. Não é Satanás também chamado de serpente e enganador (Ap 12.9; 20.2,3)? Não seriam eles seus instrumentos?
Mateus, Marcos e Lucas, cada um deles afirma uma única vez que os saduceus dizem não haver ressurreição (Mt 22.23; Mc 12.18; Lc 20.27). Lucas, no livro de Atos, igualmente observa que os saduceus declaram não haver ressurreição, acrescentando ainda: “nem anjo, nem espírito” (At 23.8), isto é, acreditavam que tudo se acaba por aqui. O embate dos saduceus com Jesus gira em torno da doutrina da ressurreição dos mortos, contudo, o Mestre não deixa de tratar com eles a respeito de anjos e também de espíritos, visto que os saduceus negavam a imortalidade da alma:
23 Naquele dia, aproximaram-se dele alguns saduceus, que dizem não haver ressurreição, e lhe perguntaram:
24 Mestre, Moisés disse: Se alguém morrer, não tendo filhos, seu irmão casará com a viúva e suscitará descendência ao falecido.
25 Ora, havia entre nós sete irmãos. O primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão;
26 o mesmo sucedeu com o segundo, com o terceiro, até ao sétimo;
27 depois de todos eles, morreu também a mulher.
28 Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será ela esposa? Porque todos a desposaram.
29 Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.
30 Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.
31 E, quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou:
32 Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos.
33 Ouvindo isto, as multidões se maravilhavam da sua doutrina.
(Mt 22.23-33; cf. Mc 12.18-27; Lc 20.27-40).
Geralmente os saduceus estão acompanhados dos fariseus no Novo Testamento (cf. Mt 3.7; 16.1,6; At 23.6,7), motivo pelo qual João Batista e Jesus chegaram a repreendê-los numa mesma sentença (Mt 3.7; 16.4,11,12). Todavia, em Mateus 22.23-33 e paralelos eles estão sozinhos porque os fariseus não compactuavam com o pensamento antirressurreição dos saduceus (cf. At 23.8).
Alguns saduceus se aproximaram de Jesus não com o intuito de aprenderem, mas de tentá-lo (cf. Mt 16.1). Esta seita tinha o Pentateuco de Moisés (a lei mosaica ou Torá) em maior valor que os demais livros do Antigo Testamento e, por isso, eles citam a lei do matrimônio levirato de Deuteronômio 25.5,6. Esse mandamento exigia que o cunhado mais próximo da viúva se casasse com ela, caso o irmão dele tivesse morrido sem deixar filhos, a fim de que o primogênito do novo casamento fosse contado como filho do morto e não se perdesse sua linhagem. Desobedecer a essa lei seria uma ofensa grave (Dt 25.7-10; cf. Gn 38.8-10).[2]
Os saduceus aventam uma hipótese absurda para mostrar quão absurda é, do ponto de vista deles, a crença na ressurreição do corpo. “Na ressurreição, de qual dos sete será ela esposa? Porque todos a desposaram”, ironizam eles. Jesus assevera que os saduceus erram por não conhecer as Escrituras e nem o poder de Deus. Erram em relação às Escrituras porque estas não se limitam apenas ao Pentateuco, e em relação ao poder de Deus porque este também é revelado nos cinco livros de Moisés.
Na ressurreição, ou seja, na vida futura, o matrimônio não será mais necessário, pois os ressurretos serão como os anjos no céu (não se casam nem se dão em casamento); anjos que os saduceus também negavam (cf. At 23.8), apesar de o Pentateuco ensinar a existência deles (Gn 19.1,15; 28.12; 32.1). Embora os saduceus ridicularizassem a doutrina da ressurreição, Jesus não se omitiu em continuar a instruí-los no tema: “E, quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos” (cf. Êx 3.6). Note a expressão “Eu sou” (não “Eu fui” ou “Eu era”) e o tríplice “o Deus de...”, mencionado separadamente em conexão com cada um dos três patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó) para enfatizar o relacionamento pessoal de Deus com cada um deles. Posto que Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos, conclui-se que Abraão, Isaque e Jacó vivem e estão aguardando uma ressurreição gloriosa.[3]
Os saduceus, por negarem a doutrina da ressurreição dos mortos (em razão da influência gnosticista grega), encarceraram os apóstolos por estarem proclamando a ressurreição de Jesus como fato já realizado e como garantia da ressurreição de outras pessoas (At 3.1-4.31).
O Sinédrio, o mais alto tribunal jurídico e religioso dos judeus, era formado por fariseus e saduceus. Paulo está perante o Sinédrio para uma de suas defesas. Por conhecer ambos os partidos e as diferenças doutrinárias no Sinédrio, o apóstolo sabia que tinha de semear a discórdia entre os fariseus e os saduceus. Paulo percebeu que se eles se unissem na acusação contra ele de perturbar a pax romana, ele perderia a proteção do comandante Lísias. Em resumo, Paulo estava lutando por sua vida.
Sabendo Paulo que uma parte do Sinédrio se compunha de saduceus e outra, de fariseus, exclamou: Varões, irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; no tocante à esperança e à ressurreição dos mortos sou julgado.
Ditas estas palavras, levantou-se grande dissensão entre fariseus e saduceus, e a multidão se dividiu.
Pois os saduceus declaram não haver ressurreição, nem anjos, nem espírito; ao passo que os fariseus admitem todas essas cousas.
Atos 23.6-8.
Com a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., os saduceus deixaram de existir.






[1] Para outras sugestões do nome e origem dos saduceus, consulte J. Julius Scott, Jr., Saduceus. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. IV. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 327-29.
[2] Para uma aplicação interessante da lei do matrimônio levirato, leia Rute 4.1-8.
[3] De acordo com Hebreus 11.19, Abraão cria com toda certeza na possibilidade de uma ressurreição física.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O discurso de Paulo em Atenas

Josivaldo de França Pereira


O discurso de Paulo em Atenas (At 17.22-31) está dividido em três partes: introdução
(vs.22b,23), conteúdo (vs.24-28) e aplicação (vs.29-31); e duas verdades principais estão em evidência nele: a doutrina de Deus e a doutrina do ser humano.
A doutrina de Deus
Paulo encontra seu texto, seu ponto de contato com os areopagitas, na dedicatória de um altar que ilustra a religiosidade intensa dos atenienses: AO DEUS DESCONHECIDO. Por que um altar com essa inscrição? De quem foi a ideia? A melhor resposta que obtive é a de John MacArthur. Diz ele:
Na verdade, havia muitos desses [altares] em Atenas. Seiscentos anos antes da época de Paulo, Atenas havia sido assolada por uma terrível praga. Centenas adoeceram e estavam morrendo, e a cidade entrou em desespero. Um famoso poeta de Creta, chamado Epimênides, elaborou um plano para pacificar quaisquer deuses que estivessem causando a praga. Subiu ao Areópago e soltou um rebanho de ovelhas. O plano era deixar as ovelhas vagarem livremente pela cidade. E, quando estas se deitassem, seriam sacrificadas ao deus do templo mais próximo. A suposição era que os deuses irados atrairiam para si as ovelhas. Entretanto, quando as ovelhas foram soltas, muitas acabaram se deitando onde não havia qualquer templo por perto. Epimênides, portanto, decidiu sacrificar as ovelhas e erigir altares onde quer que elas houvessem deitado, somente para ter certeza de que nenhuma divindade desconhecida fosse esquecida. Visto que eram deuses sem nome, as pessoas erigiram altares e santuários “AO DEUS DESCONHECIDO”. Sem dúvida, foi um desses altares que Paulo avistou.[1]
Paulo usa, portanto, a inscrição de um altar como ponto de contato com os atenienses que, naquele local de oferendas, cultuavam um deus desconhecido. Contudo, ao contrário da “teologia” ateniense, o Deus verdadeiro só pode ser verdadeiramente adorado desde que seja verdadeiramente conhecido. Segundo Calvino, é muito melhor ter o conhecimento de Deus do que adorar sem conhecê-lo, pois Deus não pode ser adorado reverentemente a menos que primeiro seja conhecido.[2]
 Na sua instrução sobre a doutrina de Deus, Paulo afirma, em primeiro lugar, que Deus criou o universo com tudo o que nele contém; ele é Senhor do céu e da terra. Essa é a terminologia da revelação bíblica (cf. Gn 14.19,22; Sl 24.1; Is 42.5). O apóstolo não faz nenhuma concessão ao paganismo helenista; nenhuma distinção entre o Ser Supremo e um “demiurgo” ou mestre de obras que deu forma ao mundo.
Em segundo lugar, Deus não habita santuários feitos por mãos humanas (cf. 1Rs 8.27). Estêvão, em sua defesa perante o Sinédrio, faz essa afirmação em relação ao templo de Jerusalém, motivo de seu martírio. O paganismo mais elevado, de fato, reconhecia que nenhuma estrutura material podia abrigar a natureza divina. No entanto, as finalidades da terminologia de Paulo são bíblicas e não clássicas.
Em terceiro lugar, Deus não depende do ser humano e de suas ofertas (cf. Sl 50.8-13). As pessoas é que dependem totalmente dele. ”Essa é precisamente a ênfase de Paulo, quando ele declara que, se Deus aceita culto do ser humano, não é porque não pode passar sem ele. Longe de ter suprida alguma necessidade pelo ser humano, é ele quem supre toda necessidade deste”.[3]
A doutrina do ser humano
Como o Criador de todas as coisas em geral é o Criador da raça humana em particular, Paulo passa da doutrina de Deus para a doutrina do homem. Em primeiro lugar, o ser humano origina-se de um só indivíduo. O apóstolo afirma que a raça humana tem uma só origem, criada por Deus e descendente de um ancestral comum – Adão. Portanto, diante do Senhor Deus, todas as pessoas se encontram no mesmo nível.
Em segundo lugar, a habitação terrena do ser humano e o curso natural das estações foram preparados para o seu bem-estar. A terra, conforme Gênesis 1, foi formada e adequada para ser a casa do homem, antes que este fosse introduzido como seu morador. Além disso, parte da formação e adequação do lar do ser humano na terra consistiu no preparo de regiões habitáveis que servissem de lugar para ele viver, e na determinação de “tempos”[4] para sua habitação (cf. Dt 32.8).
Em terceiro lugar, o propósito de Deus em fazer esses preparativos foi que as pessoas pudessem procurá-lo e achá-lo – um anseio muito natural, porque as pessoas provêm dele, e ele as ajuda em satisfazê-lo, estando próximo delas. De acordo com Bruce, é aqui que a terminologia do discurso mostra maiores afinidades helenistas, mas para uma audiência diferente Paulo poderia ter expressado o mesmo pensamento, dizendo que o ser humano é criatura de Deus, feito à sua imagem. Para sua audiência ateniense ele fundamenta sua afirmação com duas citações de poetas gregos [Epimênides e Aratos] que pressupõem o relacionamento do homem com o Ser Supremo.[5]
Os resultados do discurso de Paulo 
Paulo termina seu discurso com um chamado ao arrependimento, pois Deus não levara em conta os tempos na ignorância do pecado (cf. Rm 3.25), mas que o juízo de Deus viria por meio de um varão, Jesus, a quem ressuscitou dentre os mortos.
Quando ouviram falar da ressurreição dos mortos, alguns creram, e outros disseram que o ouviriam noutra ocasião. Nesse ínterim, Paulo se retira do meio deles, e Lucas conclui: “Houve, porém, alguns homens que se agregaram a ele e creram; entre eles estava Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e, com eles, outros mais” (At 17.34).
É interessante que nos relatos das três viagens missionárias de Paulo, Lucas inclui um discurso proferido em cada uma delas. Na primeira jornada, temos o testemunho do apóstolo Paulo em Antioquia da Pisídia (At 13.16-41); na segunda, o discurso do apóstolo no Areópago (At 17.16-31) e, na terceira viagem, a fala de despedida de Paulo aos presbíteros de Éfeso em Mileto (At 20.17-38).





[1] John F. MacArtuhr Jr., Com Vergonha do Evangelho: Quando a igreja se torna como o mundo. São José dos Campos: Fiel, 1997, p. 169.
[2] John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles. Vol. 2. Grand Rapids: Baker Books, 2003, p. 157. Veja também Héber Carlos de Campos, O Pressuposto Básico da Verdadeira Adoração. In: Jornal O Presbiteriano Conservador, edição novembro/dezembro, 1996.
[3] F. F. Bruce, Paulo, o apóstolo da graça: Sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2014, p. 232.
[4] Segundo Bruce (p. 232), os “tempos” devem ser identificados ou com a sequência de semeadura e colheita (como no discurso de Listra) ou com as épocas da história humana (como nas visões de Daniel).
[5] Idem, p. 233. Consulte John MacArthur, Paulo no Areópago. In: Com Vergonha do Evangelho, p. 159-75; Cornelius Van Til, Paulo em Atenas. Brasília: Monergismo, 2016. In: Kindle Cloud Reader.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Joio



Josivaldo de França Pereira

 
Há três perguntas básicas que poderão nos ajudar na compreensão deste importante assunto: O que é o joio? Onde está o joio? Pode o joio virar trigo?
O que é o joio?
O joio é “uma erva daninha que nasce nas plantações de grãos, parecida com o trigo”.[1] É conhecido também como cizânia e trigo bastardo. Até que sua espiga esteja madura, é quase impossível distingui-lo do trigo verdadeiro, mesmo sob o escrutínio mais severo.[2]
Abaixo do solo, a raiz do joio é mais ampla e profunda e se entrelaça na do trigo. O sistema de raízes do joio é bem mais desenvolvido que o do trigo.[3] Arrancar o joio é arriscar tirar o trigo junto e com ele um grande torrão de terra. A raiz do trigo é curta e se desprende facilmente do solo. Em sentido figurado, pode-se dizer que o joio é apegado às coisas deste mundo, apesar de externamente ser parecido com o trigo. Entretanto, acima do solo, quando trigo e joio começam a espigar, é possível distinguir facilmente um do outro – “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.20).
O “fruto” do joio é impróprio para o consumo humano, porém, “é frequentemente lançado às galinhas como ração”.[4]
Espiritualmente, o joio são os filhos do maligno.
Onde está o joio?
Jesus disse que “o campo é o mundo”, no qual se encontram “a boa semente” e “o joio”. Os “filhos do reino” e os “filhos do maligno” (Mt 13.38). Alguns comentaristas entendem que a expressão “o campo é o mundo” de Mateus 13.38 não inclui a Igreja. Segundo H. N. Ridderbos, “a referência é à mescla no mundo, não na igreja”.[5] Conquanto seja correto afirmar que “a igreja” não é “o reino dos céus”, é evidente que ela faz parte dele.[6] Os argumentos de William Hendriksen, de que a igreja visível está definitivamente compreendida na parábola do joio do campo, são dignos de consideração:
a.  Se “trigo” refere-se às pessoas em cujos corações a boa semente está produzindo fruto, isto é, em geral, à soma total dos crentes, e o “joio” é semeado entre o trigo, não paralelamente a ele nem em um campo vizinho, então, não é natural pensar na mescla de membros verdadeiros e falsos na igreja visível?
b.  É nos dito claramente que no final da era o Filho do homem recolherá “de seu reino” tudo o que é ofensivo e perpetra iniquidade. A parábola não diz que serão arrancados “da terra”, mas “de seu reino”. Como podem ser “recolhidos de” se previamente não estavam dentro, neste caso, dentro da igreja visível?[7]
Pode o joio virar trigo?
Nunca, jamais! Do mesmo modo que é contrário à lei da natureza física o joio virar trigo, o princípio também se aplica na lei espiritual. No mundo espiritual, o joio é uma classe de pessoas que não encontrará guarida no coração de Deus. A parábola do joio do campo (Mt 13.36) revela uma perspectiva escatológica. Na consumação do século, “Mandará o Filho do homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13.41,42). “O joio são os filhos do maligno” (Mt 13.38). Os falsos discípulos do reino. Eles têm “cara de santo”, parecem crentes, mas são filhos do maligno, praticantes da iniquidade (cf. Mt 7.21-23). Definitivamente eles não pertencem ao Senhor (cf. 2Tm 2.19).
É certo que os filhos do maligno sofrerão o castigo eterno por praticarem a iniquidade. No entanto, nem todo iníquo será, evidentemente, condenado, porque para muitos deles haverá lugar de arrependimento para a vida eterna (cf. Ef 2.1-3). E embora muitas vezes possam parecer com o joio, eles não são joio. Pertencem aos eleitos de Deus que um dia serão salvos, ou seja, serão transformados em trigo, na “boa semente” que “são os filhos do reino” (Mt 13.38); em justos que “resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai”, conforme disse Jesus (Mt 13.43).
Concluindo:
 Alguns comentaristas acham que a resposta negativa à pergunta “Queres que vamos e arranquemos o Joio?” significa que Jesus está dizendo que devemos ter paciência com o joio que pulula as igrejas e esperança de que um dia o joio se converta em trigo. No meu entendimento, essa interpretação não é correta, conforme mencionei agora a pouco. A ordem de não arrancar o joio é para preservar o trigo; para não se cometer injustiça com os justos (Mt 13.29). “Com o pretexto de manter a pureza da igreja, crentes zelosos têm causado dano incalculável, julgando e afastando outros cristãos da igreja”.[8] Contudo, é importante observar que o ensino bíblico acerca da disciplina eclesiástica de forma alguma se anula aqui.
 Conforme observa corretamente John MacArthur, “esta parábola não está dizendo que devemos estar despreocupados com as diferenças entre o trigo e o joio até o juízo final. Ela não nos estimula a aceitarmos joio como se fosse trigo. Não sanciona a indiferença para com os pecados dos perdidos. E nem sugere que nos esqueçamos de que há pragas no campo, e que nos tornemos desatentos para o perigo que representam. Simplesmente nos diz que devemos deixar o juízo final e a questão da retribuição nas mãos do Senhor e dos seus anjos”.[9]





[1] Citado por Simon Kistemaker, As parábolas de Jesus. São Paulo: CEP, 1992, p. 58.
[2] Cf. John F. MacArthur, Jr., O evangelho segundo Jesus. São José dos Campos: Fiel, 1991, p. 149.
[3] Kistemaker, p. 68.
[4] Cf. Joyce D. Douglas, Joio. In: Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 855.
[5] Citado por William Hendriksen, El evangelio según San Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 600, nota 544. Uma posição semelhante ao de Ridderbos é defendida por John MacArthur, op. cit., p. 150.
[6] Cf. Louis Berkhof, Teologia sistemática. 7ª ed. espanhola. Grand Rapids: TELL, 1987, p. 680.
[7] Hendriksen, p. 600.
[8] Kistemaker, p. 63.
[9] MacArthur, p. 153.