quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Argumentos bíblicos a favor do estudo da filosofia

A filosofia apresenta um desafio específico para o cristão, de modo tanto positivo quanto negativo. A filosofia é útil na construção do sistema cristão e na refutação de pontos de vista contrários. Há um texto crucial no Novo Testamento que corresponde a essas duas tarefas. Paulo disse: “Destruímos raciocínios e toda arrogância que se ergue contra o conhecimento de Deus [aspecto negativo], levando cativo todo pensamento para que obedeça a Cristo [aspecto positivo]” (2Co 10.5). Sem um conhecimento profundo da filosofia, o cristão está à mercê do não cristão tanto na construção de um sistema da verdade quanto na demolição de sistemas de erros.
Se essa é a tarefa do cristão na filosofia, como então se explica a advertência do apóstolo Paulo de ter “cuidado para que ninguém vos tome por presa, por meio de filosofias” (Cl 2.8)? Infelizmente, alguns cristãos têm entendido esse versículo como uma determinação contra o estudo da filosofia. Essa ideia é incorreta por várias razões. Primeiramente, o versículo não é uma proibição contra a filosofia propriamente dita, mas contra a falsa filosofia, pois Paulo acrescenta: “e [cuidado com] as sutilezas vazias, segundo a tradição dos homens”. Na realidade, Paulo está advertindo contra uma filosofia falsa específica, um tipo de gnosticismo incipiente que havia se infiltrado na igreja em Colossos (no texto grego há um artigo definido que indica uma filosofia específica). Finalmente, não podemos realmente ter “cuidado” com a falsa filosofia a não ser que primeiramente tenhamos consciência dela. Um cristão deve reconhecer o erro antes de poder combatê-lo, assim como um médico deve estudar a doença antes de poder tratá-la com o devido conhecimento. A igreja cristã tem sido ocasionalmente infiltrada por falsos ensinos exatamente em razão de os cristãos não terem sido adequadamente treinados para detectar a “enfermidade” do erro.
Uma boa falsificação ficará perto da verdade quanto possível. É por isso que filosofias falsas, não cristãs, mas que estão vestidas com roupagem cristã são especialmente perigosas. Na verdade, o cristão com maior probabilidade de se tornar presa de filosofias falsas é o cristão ignorante.
Deus não premia a ignorância. Os cristãos não recebem recompensa espiritual por uma fé ignorante. A fé pode ser mais meritória do que a razão (“sem fé é impossível agradar a Deus”, Hb 11.6), mas a razão é mais nobre (“Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses; [...] examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim”, At 17.11, NVI). Na realidade, o “grande mandamento” para o cristão é: “Amarás o Senhor teu Deus [...] de todo o entendimento” (Mt 22.37). Pedro diz que devemos sempre estar preparados “para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15). Paulo diz que estamos ocupados “na defesa e na confirmação do evangelho” (Fp 1.7) e ele mesmo “arrazoou [...] acerca das Escrituras” (At 17.2, NVI).
É verdade que somos advertidos contra “a lógica do mundo” (1Co 1.20). Mas isso também faz parte do desafio da filosofia para o cristão. Conforme C. S. Lewis corretamente observou: “Sermos ignorantes e ingênuos agora – não sendo capazes de enfrentar os inimigos em seu terreno – seria largar nossas armas e trair nossos irmãos iletrados que não têm, dentro da providência de Deus, defesa alguma além de nós contra os ataques intelectuais dos pagãos. Uma boa filosofia deve existir, se não por outra razão, por ser necessário dar uma resposta à má filosofia”.[1]






[1] Extraído e adaptado de Norman L. Geisler; Paul D. Feinberg, Introdução à Filosofia: Uma Perspectiva Cristã. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 77-8.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O cristão reformado e a filosofia

Josivaldo de França Pereira

O que é ser um cristão reformado? Qual a relação dele com os sistemas filosóficos e a necessidade de uma filosofia reformada hoje?
O cristão reformado
Houve tempo em que o adjetivo “cristão” era um termo cheio de significado e importância. Era uma designação que não estava ligada à religião de alguém, mas à identidade que um indivíduo tinha com a pessoa de Cristo. O termo sofreu desgaste com o passar dos anos. Hoje, cristão é todo aquele que diz professar o cristianismo, ou que esteja filiado a uma igreja ou religião que se denomine cristã.  “Reformado” é um vocábulo que tenta salvaguardar o verdadeiro sentido de ser cristão. No entanto, até mesmo o adjetivo “reformado” vem sofrendo desgastes. Segundo Herman Hanko,
É comumente conhecido que a palavra “reformado” passou a ter uma variedade de significados tão grande em nossos dias, e que de fato, ela passou a não significar nada. Há igrejas que se denominam “reformadas”, mas que estão tão longe de serem reformadas quanto o leste está do oeste. Elas são incapazes de descrever o que a fé reformada é de fato. Até mesmo pior do que isto, há igrejas que se denominam “reformadas”, mas que além de não serem reformadas, verdadeiramente têm se tornado inimigas e oponentes da fé reformada.[1]
O que não é um cristão reformado? Não é um cristão reformado quem ensina que o evangelho é um convite para que todas as pessoas sejam salvas. Não é um cristão reformado quem declara que o evangelho expressa a boa vontade, o anseio e o desejo de Deus de salvar todos aqueles que ouvirem o evangelho. Não é um cristão reformado quem afirma que Cristo está de braços abertos suplicando e implorando a todos para virem a ele e aceitarem-no. A fé reformada não é “decisionismo”, “convidacionismo” e uma “oferta” para todos.
A fé reformada não ensina que é possível ao ser humano resistir o chamado eficaz do Espírito Santo ou mesmo restringir o Espírito de completar sua obra. Um ser humano não consegue – com êxito – continuar no caminho da incredulidade, do pecado e do inferno apesar dos esforços do Espírito Santo. Não é um cristão reformado quem defende que uma vez filho de Deus não significa necessariamente sempre filho de Deus. A fé reformada não ensina que eu poderia ser filho de Deus hoje, estar perdido amanhã e talvez uma semana depois ser salvo novamente, e um mês depois, mais uma vez estar a caminho da perdição. Não é um cristão reformado quem afirma que Deus ama a todos e Cristo morreu por todos. “A palavra ‘reformado’ veio da reforma de Calvino. A genialidade da reforma de Calvino é que esta foi uma reforma de doutrina, de adoração e governo da igreja”.[2]
O que é um cristão reformado (ou simplesmente um reformado)? Augustus Nicodemus Lopes sumariza bem: “Por ‘reformado’ entendo aquele que adere a uma das grandes confissões reformadas produzidas logo após a Reforma protestante no século XVI, aos cinco grandes pontos dessa Reforma, que são Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fides, Solus Christus e Soli Deo Gloria e aos chamados ‘Cinco Pontos do Calvinismo’, resumidos no acrônimo TULIP (Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e Perseverança final)”.[3]
O cristão reformado e sua relação com os sistemas filosóficos
Há pelo menos dois pontos negativos que o cristão reformado deve ter em mente ao se aproximar da filosofia. O primeiro deles é que não existe sistema filosófico completo e absoluto. O segundo é o perigo em aliar a fé cristã muito estritamente com qualquer sistema filosófico individual.
Algo que se destaca em nosso panorama de mais de mil anos de debates entre os filósofos e os cristãos no mundo ocidental, é o de nenhum sistema filosófico ter-se revelado completo e perfeito. Na verdade, podemos dizer que sistemas, como por exemplo o idealismo absoluto, que tem feito as maiores reivindicações quanto a serem abrangentes e completos, são precisamente os que mais deixam a desejar. Vez ou outra, no decorrer dos séculos, alguém surge com uma ideia alegando veracidade, desenvolve-a sob a forma de um sistema que, segundo se pensa, é capaz de explicar todas as coisas, aclamada como a chave para se desvendar todos os mistérios. Cedo ou tarde seus defensores se veem obrigados a negar a existência de tudo quanto a “nova” ideia não consegue explicar, ou admitir que ela não é bem tudo quanto imaginavam que fosse. O resultado é a desilusão, e as pessoas mais uma vez saem em busca de outra novidade.
Sproul, em sua peregrinação pessoal durante a juventude, admite que encontrou opiniões valiosas em Spinoza, Kant, Sartre e outros, mas nenhum deles parecia ter uma visão coerente da vida e do mundo. Os próprios filósofos eram seus melhores críticos. Hume criticou Locke; Kant criticou Hume; Hegel criticou Kant, e assim por diante. Não surgiram quaisquer “resultados seguros” mediante as especulações intelectuais.[4]
Mas isto não quer dizer que a filosofia não tenha valor para o cristão reformado. É evidente que tem. O estudo da história da filosofia fez com que Sproul conhecesse virtualmente toda alternativa séria ao cristianismo gerada pelo mundo. Ele começou a apreciar a falência das perspectivas seculares. O estudo da filosofia forneceu elementos de grande valor para uma análise crítica que foram de enorme utilidade para ele. Quanto mais ele estudava filosofia tanto mais confiável e satisfatório se tornava o cristianismo.[5]
Segundo Geisler e Feinberg, compreender e apreciar a filosofia ajudará a entender a sociedade em que vivemos; os elementos críticos e aquilatadores da filosofia podem ajudar a libertar a pessoa das garras do preconceito, do provincialismo e do raciocínio pobre e, a despeito da natureza abstrata de grande parte da filosofia, ela pode ser útil na vida diária.[6] E mais:
Uma vez que toda a verdade é verdade de Deus e já que a filosofia é uma busca da verdade, então a filosofia contribuirá para nossa compreensão de Deus e do mundo que ele criou. Além disso, a história demonstra que argumentos e conceitos filosóficos têm desempenhado um grande e importante papel no desenvolvimento da teologia cristã. Embora nem todos os teólogos concordem quanto ao valor ou a pertinência desses argumentos, todos reconhecem que algum conhecimento das raízes filosóficas é necessário para a compreensão da teologia cristã.[7]
Não é possível fazer teologia sem um fundamento filosófico.[8] Entretanto, aliar a fé cristã muito estritamente com qualquer sistema filosófico pode ser perigoso. Brown salienta que os perigos de alinhar o cristianismo muito estritamente com um sistema ou ideia filosófica específica têm pelo menos dois aspectos. De um lado, a fé cristã tem de passar por uma manipulação a fim de se encaixar no sistema escolhido. Algumas coisas precisam ser esticadas, ao passo que outras necessitam ser cortadas, ou pelo menos, discretamente negligenciadas. Por outro lado, quando uma falha é detectada no sistema, dá-se a impressão de que a fé cristã esteja entrando em colapso juntamente com o sistema ao qual foi associada. Não é de se admirar, segundo Brown, que em muitos círculos filosóficos atuais suponha-se que, porque os antigos argumentos aristotélicos e racionalistas em prol da existência de Deus caíram por terra, todas as bases para a crença racional em Deus tenham entrado em colapso com eles.[9]
A necessidade de uma filosofia reformada hoje
Por “necessidade de uma filosofia reformada hoje” não significa que uma filosofia de origem reformada deva ser inventada, posto que já existe. Ela precisa, na realidade, ser resgatada, pois é praticamente desconhecida em nosso país. A filosofia reformada foi criada pelo renomado teólogo, filósofo e estadista holandês Abraham Kuyper (1837-1920), pensador original e enciclopédico. Foi desenvolvida por Herman Bavinck (1854-1921) que lançou, juntamente com Kuyper, os fundamentos da filosofia reformada, Herman Dooyeweerd (1894-1977), o grande sistematizador da filosofia, mestre da crítica transcendental, pai da filosofia cosmonômica, Dirk H. Theodor Vollenhoven (1892-1978), Hendrik G. Stoker (1899-1994) e Cornelius Van Til (1895-1987).[10]
A filosofia reformada é necessária hoje por algumas razões. Em primeiro lugar, ela está fundamentada na Bíblia e enaltece o caráter do verdadeiro Deus. Para a filosofia reformada a Bíblia é a Palavra de Deus, nossa única regra infalível de fé e prática, a revelação especial que nos permite ver o mundo como o próprio Deus o vê. A noção reformada da revelação não só dá amplo espaço para o pensamento filosófico, como também é o único solo adequado para o florescimento de uma verdadeira filosofia cristã. Sendo assim, a filosofia medieval não nos serve. Agostinho, naquilo que ele é autenticamente evangélico, e verdadeiro precursor do pensamento reformado, é maravilhoso, porém sua filosofia cristã foi bastante afetada pelo platonismo grego. Tomás de Aquino também não nos serve porque na filosofia dele a fé cristã é submetida a um desconfortável processo de adaptação ao aristotelismo. Em Aquino Deus não se distingue de sua criação. O elemento transcendente na filosofia tomista não é Deus, mas o “Ser” que se acha mecanicamente ligado ao cosmos e dependente dele.[11]
A segunda razão pela qual a filosofia reformada se faz necessária hoje é por sua marca, ou seja, seu pensamento antitético. A filosofia reformada é uma filosofia na contramão e contracorrente de uma intelectualidade que se afastou de Deus. Gouvêa explica:
A filosofia não-cristã sofre de um racionalismo ingênuo desde suas origens helênicas, e a intelectualidade abraçou definitivamente a utopia do ideal científico e o mito da objetividade empírica, a falácia autofágica dos pressupostos humanistas, como a autonomia do pensamento, que implica na rejeição de toda autoridade e na absolutização do juízo crítico. Hoje temos assistido à consumação inevitável de tais compromissos anticristãos. O homem se mostra confiante na sua racionalidade a qual supõe potencialmente onisciente, adorando-se como criador e provedor, arquiteto e intérprete do universo, centro de toda a realidade, e o sentido do mundo e da existência. Ele ouve a voz que lhe sussurra: “Certamente não morrerás; pelo contrário, tu serás como o próprio Deus!” (Gn 3.4-5).[12]
Em terceiro lugar, a filosofia reformada é necessária hoje por causa do calvinismo integral. O calvinismo integral possui uma visão completa da vida e do mundo. Tudo na vida é religião para o pensador calvinista. O calvinismo é uma biocosmovisão completa que envolve todos os aspectos da vida e das áreas do conhecimento humano. Um verdadeiro calvinista não se satisfaz apenas com uma teologia reformada. Ele busca uma filosofia igualmente reformada, bem como uma ciência, uma arte, uma cultura, uma política, etc., reformadas. Todas as áreas do conhecimento podem e devem ser exploradas a partir de pressupostos cristãos reformados.[13] Deus é absolutamente soberano sobre toda criação como o é em todos os aspectos da realidade e esferas da vida humana. Como disse Kuyper: “Não existe sequer um centímetro de nossa natureza humana do qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame ‘Meu!’”.[14] O conceito central e fundamental do pensamento reformado é a soberania absoluta de Deus sobre tudo e todos.





[1] Herman Hanko, O que significa ser reformado? In: http://www.cprf.co.uk/languages/portuguese_meanstobereformed.html#.XDO71tQrJkh. Acesso em Janeiro de 2019.
[2] Idem.
[3] Augustus Nicodemus Lopes, O que é um cristão reformado? In: https://www.youtube.com/watch?v=bMSivDqr6oo. Acesso em Janeiro de 2019. Para uma análise mais detalhada do que é ser um cristão reformado, consulte Herman Hanko.
[4] R. C. Sproul, Razão para crer. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1991, p. 12.
[5] Sproul, p. 12.
[6] Norman L. Geisler; Paul D. Feinberg, Introdução à filosofia: Uma perspectiva cristã. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 20-21.
[7] Idem, p. 22.
[8] Para argumentos bíblicos a favor do estudo da filosofia, consulte Geisler e Feinberg, p. 77-8.
[9] Colin Brown, Filosofia e fé cristã. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 231.
[10] Cf. Ricardo Quadros Gouvêa, Calvinistas também pensam: Uma introdução à filosofia reformada. In: Revista Fides Reformata, Vol. 1, janeiro-junho 1996, p. 51-52.
[11] Idem, p. 50.
[12] Idem, p. 48-49.
[13] Consulte Abraham Kuyper, Calvinismo. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014. O livro todo é excelente.
[14] Frase proferida por Abraham Kuyper no discurso inaugural da Universidade Livre de Amsterdã em 1880.