sábado, 23 de fevereiro de 2019

A mais excelente prova de amor

Josivaldo de França Pereira

O amor é uma das doutrinas bíblicas centrais que expressam o conteúdo total da fé cristã (cf. Jo 3.16). A atividade do amor provém de Deus, que é amor. “Deus é amor” (1Jo 4.8). “Dizer ‘Deus é amor’ subentende que toda a sua atividade é amorosa. Se ele cria, cria com amor; se ele governa, governa com amor; se ele julga, julga com amor” (C. H. Dodd).
Deus é amor em sua própria natureza. O amor de Deus é a essência do seu ser; o dom supremo que garante todos os outros (Rm 8.32). O propósito de Deus desde o princípio tem sido propósito de amor (Ef 1.4,5). “O propósito primário de Deus para o mundo é seu amor compassivo e perdoador que se assevera a despeito da rejeição hostil dele pelo mundo” (W. Günther, H.-G Link).
O amor de Deus é perfeito. Não pode ser aumentado nem diminuído porque Deus é pleno, completo e absoluto em si mesmo. Deus é o que é em amor. Deus não seria menos amor mesmo que não demonstrasse esse amor. Contudo, como diz J. I. Packer, “Mede-se o amor calculando quanto ele dá, e a medida do amor de Deus é a dádiva de seu único Filho para ser feito homem e morrer pelos pecadores, e assim tornar-se o único mediador que nos pode levar a Deus”. 
Por isso Paulo declarou que “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Em outras palavras, “O que Paulo está dizendo é que o amor de Deus, como revelado em Jesus Cristo, é tanto abrangente quanto sem paralelo” (W. Hendriksen). Note também que Paulo usa o verbo “provar” no tempo presente. “Ainda que seja verdade que para Paulo, na época em que escreveu essa carta [aos Romanos], como também para nós hoje, a morte de Cristo foi um evento que ocorrera no passado, sua lição permanece uma realidade sempre presente e gloriosa” (Hendriksen).
Jesus Cristo é a maior prova e expressão do grande amor de Deus. João relata que “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). E ainda: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus...” (1Jo 3.1). De fato, o amor de Deus é simplesmente um grande amor (Ef 2.4).
Deus amou quem não o amava. Amou-nos antes mesmo de termos uma só partícula de amor por ele (cf. 1Jo 4.19). Jesus nos amou como amigos antes mesmo que quiséssemos ser amigos dele: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15.13), isto é, “amigos” somente no sentido de que ele nos declarou assim, visto que em nós mesmos e por natureza (aparte da graça de Deus), Cristo, nas palavras de Paulo, morreu por “fracos”, “ímpios”, “pecadores” e “inimigos” (Rm 5.6,8,10).
Que amor imensurável! Deus nos amou quando ainda éramos inimigos dele! Segundo F. F. Bruce, “o amor de Deus se vê em Cristo dar sua vida por aqueles que não eram nem justos nem bons, senão ímpios pecadores”.
“Que havia em mim que atraiu o coração de Deus? Absolutamente nada. Ao contrário, porém, havia tudo para o repelir, tudo na medida para levá-lo a detestar-me – sendo eu pecador, depravado, corrupto, sem ‘nenhum bem’ em mim” (A. W. Pink).
“Devido à sua graça soberana, Deus se eleva acima do pecado e ama sem motivo algum, salvo aquilo que faz parte de sua própria natureza, parte de sua glória. Os homens precisam de algum motivo para amarem. Deus não tem outro motivo, além de si mesmo, e nos ‘recomenda o seu amor’ (e a palavra ‘seu’ é aqui enfática, no que tange a essa questão), pois, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós – o melhor que os céus poderiam dar, pelos pecadores mais vis, mais contaminados e mais culpados” (J. N. Darby).
Quando você for tentado a duvidar do amor de Deus, lembre-se do que ele fez por você na cruz do Calvário.


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Atitudes para com o próximo

(A mensagem de Lucas 10.30-35)

Josivaldo de França Pereira

Um intérprete da lei se levantou com o intuito de por Jesus à prova, perguntando o que devia fazer para herdar a vida eterna. Jesus respondeu com duas outras perguntas: “Que está escrito na lei? Como interpretas?”. O homem respondeu citando os dois grandes mandamentos, ou seja: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Jesus disse que a resposta estava correta, e completou: “faze isto e viverás”. Não satisfeito com a objetividade do Mestre, querendo justificar-se, o intérprete da lei indagou: “Quem é o meu próximo?”. Jesus prosseguiu contando a famosa história de Lucas 10.30-35, na qual se destacam três atitudes distintas em relação ao próximo.
1.      Uma atitude inaceitável: O que é seu é meu.
A atitude inaceitável foi executada pelos salteadores. Eles fizeram simplesmente um estrago no homem que seguia tranquilamente seu caminho, porque “depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto”. Uma atitude sádica, covarde e bandida é o mínimo que se pode esperar de gente assim. O ladrão nunca aparece para trazer boas novas ou fazer o bem a quem quer que seja. Parece surgir do nada, chegando de repente, sem aviso prévio, causando terror e tragédia na vida das pessoas. Jesus sintetizou muito bem a ação de um salteador quando disse no evangelho de João: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir...” (Jo 10.10). A atitude inaceitável de um bandoleiro e malfeitor resume-se nisto: “O que é seu é meu”.
2.      Uma atitude não recomendável: O que é meu é meu.
A atitude não recomendável foi praticada pelo sacerdote e o levita. Ambos iam de Jerusalém para Jericó quando se depararam com um homem despido, ensanguentado e semimorto no meio do caminho. Note que o homem espancado pelos salteadores fazia o mesmo trajeto do sacerdote e o levita. Ele também “descia de Jerusalém para Jericó”. Isso sugere que ao menos ele era judeu e vizinho do sacerdote e do levita. Jericó era conhecida como a cidade dos sacerdotes e levitas. Provavelmente o sacerdote acabara de ministrar num culto e o levita de cantar no coral da Cidade Santa. Mas eles não praticaram o que fizeram lá. Adoração e louvor que não produzem compaixão para com o próximo não têm sentido para Deus. Religioso que não pratica o evangelho vai sempre “passar de largo” diante de quem precisa de ajuda. A atitude não recomendável de uma pessoa hipócrita e egoísta resume-se nisto: “O que é meu é meu”.
3.      Uma atitude louvável: O que é meu é seu.
A atitude louvável foi realizada pelo samaritano. O homem que por natureza é odiado pelos judeus socorre um judeu. Ele fez o bem sem olhar a quem. É provável que ele tivesse um compromisso urgente, mas abriu mão de sua agenda para assistir ao necessitado. Socorrer uma vida vale mais que qualquer outro negócio. E foi o que o bom samaritano fez. Ele se aproximou do ferido, realizou os primeiros-socorros, transportou-o em seu próprio animal (indicando que ele mesmo seguiu a pé), levou-o para uma hospedaria e tratou pessoalmente dele. Não podendo ficar por mais tempo, no dia seguinte pediu que o hospedeiro cuidasse do homem ferido, pagando por isso. Contudo, retornaria para ver o próximo e indenizar o hospedeiro, caso este tivesse gastado alguma coisa a mais com o enfermo. A atitude louvável de uma pessoa bondosa e altruísta resume-se nisto: “O que é meu é seu”.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Sobre o culto infantil

Josivaldo de França Pereira
Tenho acompanhado o debate recente em torno do culto infantil. Os contrários a ele defendem sua extinção alegando que culto infantil não é bíblico e que testemunhos comprovam que adolescentes e jovens estão fora da igreja hoje porque não participaram do culto junto com seus pais quando pequenos.
Alguns desses relatos são superestimados. Também temos adolescentes e jovens fora da igreja que nunca passaram pelo culto infantil quando crianças, apesar de estarem assentados ao lado de seus pais quando menores.
Os líderes contrários ao culto infantil demonizam-no, pintando-o como se fosse uma abominação dos infernos. Nunca participei de culto infantil quando menino, mas me lembro como eu ficava incomodado com aqueles cultos enfadonhos para mim e dos beliscões de minha mãe por não permanecer quieto no banco.
Culto infantil, a meu ver, é uma questão de bom senso. Não concordo que as crianças devam ser tiradas do culto público para o culto infantil simplesmente porque deva ser assim, mas que se invista em professores no intuito de prepará-los para isso, com didática e material próprios para atender uma faixa etária de crianças de até três ou quatro anos de idade, por exemplo. Não vejo nisso problema algum.
Dizer que os pais querem o culto infantil para se livrar dos filhos no culto não deveria ser uma fala generalizada. Pais que sabem que seus filhos estão em boas mãos e, portanto, despreocupados no culto público, adoram melhor.
Não participei de culto infantil quando pequeno porque não existia no meu tempo, mas gostaria de ter feito parte dele na minha infância. E, com certeza, teria sido um alívio para a minha mãe também.
Nem todos os meus irmãos que cresceram como eu sem o culto infantil, sentados comigo no banco, e mais comportados do que eu, estão hoje na igreja. Penso que um pouco de bom senso nessa questão não faria mal a ninguém.