sábado, 25 de abril de 2020

André e Filipe

 Josivaldo de França Pereira

Não temos como saber o porquê, mas é interessante a forma como o evangelista João relaciona André e Filipe nos mesmos episódios, ou acontecimentos parecidos no ministério de Jesus.
André e Filipe eram naturais da cidade de Betsaida (Jo 1.44), uma aldeia praiana (Mc 8.13,26) ao norte da Galileia (Jo 12.21), na costa ocidental do mar de Tiberíades e oriente do Jordão, próxima a Cafarnaum, ao que tudo indica (cf. Mc 6.45; Jo 6.17). Em aramaico Betsaida quer dizer “casa da pesca”.
André (juntamente com João, o apóstolo amado) era discípulo de João Batista antes de seguir a Jesus (Jo 1.35-40). André foi quem levou seu irmão Simão Pedro até Cristo (Jo 1.41,42). Logo na sequência Filipe faz o mesmo com seu amigo Natanael (Jo 1.43-46).
Tanto Pedro quanto Natanael conheceriam Jesus através de outros discípulos que, no caso, seriam André e Filipe, respectivamente. “Ele [André] achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo)” (Jo 1.41).
“Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José. Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma cousa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê” (Jo 1.45,46). Filipe faz um relato perfeito da pessoa de Jesus a Natanael. Sua citação das Escrituras relembra o que Cristo, após ressurreto, diria a dois seguidores dele no caminho de Emaús e aos seus discípulos (Lc 24.27,44).
André e Filipe nos ensinam no primeiro capítulo de João que é preciso seguir Jesus de perto, falar de Jesus a quem está perto e que, por fim, é preciso levar outros a Jesus.
Na multiplicação dos pães e peixes, João descreve:
Então, Jesus, erguendo os olhos e vendo que grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pães para lhes dar a comer?
Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que estava para fazer.
Respondeu-lhe Filipe: Não lhes bastariam duzentos denários de pão, para receber cada um o seu pedaço.
João 6.5-7
Imediatamente o evangelista agrega:
Um dos seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, informou a Jesus:
Está aí um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas isto que é para tanta gente?
João 6.8,9
Tanto Filipe quanto André responderam com incredulidade à pergunta de Jesus: “Onde compraremos pães para lhes dar de comer?”. Contudo, o Cristo compassivo dizia isto para experimentá-los; porque ele bem sabia o que estava para fazer.
No capítulo 12.20-23, um grupo de estrangeiros deseja ver Jesus. Entre os que subiram a Jerusalém para adorar a Deus durante a festa da Páscoa, havia alguns gregos. Estes, pois, se dirigiram a Filipe, e lhe rogaram: “Senhor, queremos ver Jesus”. Filipe foi dizê-lo a André, e André e Filipe o comunicaram a Jesus. Dos doze discípulos do Senhor, apenas André e Filipe tinham nomes gregos, embora fossem judeus.
A exceção no relacionamento André-Filipe ocorre no capítulo 14, onde Filipe aparece sem a participação audível de André:
Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.
Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?
Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras.
Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras.

João 14.8-11

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A humanização das coisas e a coisificação do humano

 Josivaldo de França Pereira

O mundo está cada vez mais estranho. Recentemente, em um comercial de televisão, uma garota dizia aos pais que gostaria de apresentá-los seu namorado. O “namorado” era um carro.
Em outras situações vemos as pessoas beijando e abraçando objetos como se fossem gente.
Na economia, virou moda dizer “o mercado está nervoso”; “a economia está reagindo”; “o mercado está tomando fôlego”, etc. Esses são alguns poucos exemplos de humanização das coisas.
Por outro lado, o ser humano virou uma coisa, um objeto. Somos um número de CPF ou RG. Ao chegarmos a qualquer estabelecimento, comercial ou não, via de regra quem nos atende não pergunta mais qual é o nosso nome, mas o número da senha, do documento, e assim por diante.
A alta tecnologia tem nos robotizado e nos afastado uns dos outros. Como disse alguém, a tecnologia (em especial a dos smartphones) aproxima quem está longe e afasta quem está perto. As pessoas quase não se falam cara a cara; olho no olho. Esse tipo de tecnologia praticamente acabou com o diálogo físico, ao vivo.
Mesmo dentro de casa as famílias já estão se comunicando por meio de aplicativos. A curto e médio prazos teremos o resultado não pouco nefasto de toda essa pandemia tecnológica.
Se a TV deixou a comunicação familiar enferma, o teclado de um celular a matou de vez!

terça-feira, 21 de abril de 2020

Sobre animais e seres humanos

Josivaldo de França Pereira

Um famoso ator de TV, rodeado de chimpanzés num programa de televisão, disse: “Eu fico emocionado em saber que viemos deles”.
Os primatas não são nossos ancestrais ou parentes mais próximos. O parente mais próximo do ser humano é outro ser humano. Não somos macacos, somos gente.
Há quem diga que um chimpanzé tem de 98% a 99% do DNA semelhante ao humano. Mas são 1% ou 2% que fazem uma diferença enorme! Como diria Ariano Suassuna, mesmo que vivesse 500 bilhões de anos um macaco não fabricaria um prendedor de roupa.
Os animais não são racionais. Eles possuem apenas uma inteligência instintiva dada por Deus. Se treinados, podem até obedecer a comandos não instintivos, porém, nada além disso. As abelhas, por exemplo, fazem suas colmeias como nenhum outro animal ou ser humano poderia. Entretanto, é só o que elas realizam, e sempre do mesmo jeito.
Na atualidade, vivemos a humanização do animal e a animalização do ser humano. Nós não nos incomodamos com um homem carregando uma carroça pesada, mas nos perturbamos quando uma carga é puxada por um cavalo.
Casais sem filhos se sensibilizam e trazem para casa um cãozinho abandonado, mas de forma alguma querem adotar uma criança desamparada.
Há uma perceptível inversão de valores. Aqui no Brasil,  quem matar uma arara-azul, por exemplo, comete crime inafiançável; mas quem matar o guarda-florestal pode responder em liberdade.
Não estou com isso dizendo que devemos desprezar ou maltratar os animais. Muito pelo contrário. O que estou afirmando é: temos que amar os animais, porém, nós valemos muito mais do que eles, como disse Jesus (Mt 6.26; 10.31; Lc 12.7,24; 13.15,16). Foi também nesse sentido que Paulo escreveu aos coríntios: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi, quando pisa o trigo. Acaso, é com bois que Deus se preocupa?” (1Co 9.9).
Que o nosso Criador se importa com os animais não temos dúvida. Haja vista a grande arca de Noé para preservá-los (Gn 6.19-21); a repreensão de Deus contra os caldeus (Hc 2.17) e o ensino de Jesus em Mateus 6.26 sobre o cuidado do Pai com as aves do céu.
A diferença entre animais e humanos existe porque os animais foram criados por Deus segundo a espécie deles (Gn 1.20-25), mas o homem e a mulher foram feitos conforme a imagem e semelhança do Senhor, a coroa da sua criação (Gn 1.26,27). “Fomos criados ‘à imagem de Deus’, o pináculo da criação divina, mais semelhantes a Deus do que qualquer outra criatura, nomeados para reger o resto da criação”.[1]
Biblicamente, não existe espécie humana. Existe a raça humana (At 17.26). Somente os animais têm espécie. Sendo assim, como podemos definir espécie? E o que seriam imagem e semelhança?
Espécie pode ser definida como característica comum que serve para dividir os seres em grupos; qualidade, natureza, gênero. Imagem e semelhança são termos equivalentes que expressam o caráter de Deus refletido no ser humano, conforme Gênesis 1.28; Salmo 8.5-8 (sujeição e domínio, entre outros atributos).
Além do mais, outro aspecto distinto entre animais e humanos é a autoconsciência. Autoconsciência é a capacidade que uma pessoa tem de estar consciente de sua própria identidade, de saber quem ela é.
Um animal pode ter consciência das coisas que estão ao seu redor, mas não tem autoconsciência, a consciência de si mesmo. Ele é capaz de se olhar no espelho, mas não tem noção de seu próprio reflexo.
Sabemos que o ser humano não está lá aquelas coisas. O pecado causou um estrago imensurável na natureza humana, a ponto de alguns dizerem: “Quanto mais conheço as pessoas mais eu gosto dos animais”. Mesmo assim, valemos mais que os bichos porque a imagem de Deus, ainda que afetada e manchada pelo pecado, permanece em nós. 



[1] Wayne Grudem, Teologia Sistemática. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 201. Veja também Louis Berkhof, Manual de Doutrina Cristã. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 97-99.