sábado, 30 de maio de 2020

Prosélitos e tementes a Deus no Novo Testamento

 Josivaldo de França Pereira

Em quase todas as sinagogas judaicas existiam, além de judeus, é claro, dois grupos distintos de gentios. O primeiro grupo era formado pelos denominados "prosélitos", isto é, gentios convertidos ao judaísmo. Os homens eram circuncidados, concordavam em obedecer a lei e guardar o sábado; faziam peregrinações a Jerusalém, e daí em diante não eram mais gentios, e sim judeus. Bavinck observa que o historiador romano Tácito criticou estes prosélitos por abandonarem sua pátria e família para viver entre um povo estrangeiro.[1]
O Senhor Jesus, nas suas advertências contra os escribas e fariseus, condenou o proselitismo deles: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!” (Mt 23.15). Um dos motivos para essa crítica pode ser encontrado no mesmo capítulo: “Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los” (Mt 23.4; cf. Gl 6.13).
No Pentecostes de Atos 2, o evangelista Lucas destaca que havia “tanto judeus como prosélitos” em Jerusalém (At 2.11). Entre os diáconos eleitos em Atos 6 estava um cristão de nome “Nicolau, prosélito de Antioquia” (At 6.5), isto é, um gentio que se convertera antes ao judaísmo e agora ao cristianismo. O resultado da primeira viagem missionária de Paulo, em Antioquia da Pisídia, foi: “Despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos piedosos seguiram Paulo e Barnabé, e estes, falando-lhes, os persuadiam a perseverar na graça de Deus” (At 13.43).
O segundo grupo de gentios que normalmente frequentava a sinagoga era composto pelos chamados "tementes a Deus". A expressão temente a Deus representa mais do que afirmar que alguém cria em Deus ou algo parecido, e sim, que ele fazia parte de um grupo de gentios simpatizantes do judaísmo. Eles eram apreciadores da lei e dos ensinamentos judaicos, mas por uma série de razões pessoais achavam por bem não se desvincular de suas raízes gentílicas, como os prosélitos, para se tornarem judeus.
Os tementes a Deus não seguiam de modo absoluto todas as normas e procedimentos da lei judaica. Os homens não praticavam a circuncisão nem faziam peregrinações religiosas a Jerusalém, por exemplo. Lucas, no livro de Atos, menciona três indivíduos como tementes a Deus: Cornélio (At 10.1,2,22); Lídia (At 16.14) e Tício Justo (At 18.7).
Quando o apóstolo Paulo ia a uma sinagoga sua preferência era, por assim dizer, pelos tementes a Deus. Por não serem judeus nem prosélitos, eles estavam mais receptivos ao evangelho. Paulo nunca sofreu retaliação de um temente a Deus. Na maioria das vezes ele fora alvo da oposição e perseguição de judeus incrédulos e invejosos (cf. At 9.23; 13.45,50; 14.2,19; 17.5,13; 18.6,12; 21.10,11,30,31; 23.12).
Que a expressão “temente a Deus” não é sinônimo de cristão ou reverência a Deus, mas de simpatia e afeição pelo judaísmo, percebe-se na fala de Pedro sobre Cornélio: “E ele nos contou como vira o anjo em pé em sua casa e que lhe dissera: Envia a Jope e manda chamar Simão, por sobrenome Pedro, o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa” (At 11.13,14). 
Ou seja, um temente a Deus não era um crente em Cristo Jesus, mas alguém que precisava, assim como o judeu ou prosélito, do evangelho da graça de Deus para sua salvação (At 11.18; 15.11; Rm 3.29,30).[2]




[1] J. H. Bavinck, An Introduction to the Science of Missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1960, p. 27.
[2] O autor da carta aos Hebreus (11.7) se refere a Noé como “temente a Deus”. Nesse caso significa que o patriarca tinha “profunda reverência a Deus”.

O significado das manifestações sonoro-visuais do Espírito Santo no Pentecostes de Atos 2

Josivaldo de França Pereira

Lucas relata:
Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados.
E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem (At 2.1-4).
O tempo entre a ascensão de Jesus e a espera dos discípulos para o derramamento do Espírito Santo foi curto, de apenas dez dias. Nas palavras do Mestre, o Pentecostes ocorreria "não muito depois destes dias" (At 1.5). O Pentecostes é o ponto alto da sequência de eventos relacionados à morte, ressurreição e ascensão de Jesus. É por isso que para Lucas o Pentecostes possui um sentido prático e dinâmico, traduzido em termos de nascimento e missão da igreja neotestamentária.[1]
Qual o significado das manifestações sonoro-visuais do Espírito Santo em Atos 2?
O som de vento e línguas como de fogo
Diferente do entendimento de muitos, em Atos 2.2,3 não teve vento nem fogo, ou seja, não houve nessa ocasião o sopro real de um pé-de-vento e nem uma fagulha de fogo sequer. O texto é nítido em afirmar que veio do céu um som como de um vento impetuoso (portanto, um som de vento) e línguas como de (parecido com) fogo. Qual o significado do som como de vento impetuoso e línguas como de fogo em Atos 2? Na Bíblia, o vento às vezes simboliza a presença de Deus e ação do Espírito Santo (cf. 1Rs 19.11; Ez 37.9; Jo 3.8; 20.22). Em Atos 2.2 o som de vento impetuoso denota poder celestial e seu aparecimento repentino revela a inauguração da Igreja de Cristo de forma extraordinária e sobrenatural.
O fogo, espiritualmente falando, era o cumprimento da descrição de João Batista do poder de Jesus: "Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11; Lc 3.16). No Antigo Testamento, o fogo é frequentemente um símbolo da presença de Deus para expressar santidade, juízo e graça (cf. Êx 3.2-5; 1Rs 18.38; 2Rs 2.11). Em Atos 2 apareceram, distribuídas entre os que estavam reunidos naquele lugar, línguas como de fogo, e pousou uma sobre cada um dos crentes que se encontravam na casa. Em decorrência disso, “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.4).[2]
Notemos que Lucas tem o cuidado de observar que não foram simplesmente o som de vento e línguas como de fogo que invadiram a residência, e sim, o próprio Espírito Santo quem adentrou o cenáculo com som de vento e línguas como de fogo, conforme o relato de Atos 2.4. Essa foi a maneira que o evangelista encontrou para dizer que o que aconteceu naquele dia não tinha nada a ver com fenômenos meramente naturais.
As línguas inteligíveis
Quanto à natureza das línguas faladas em Atos 2.4, não é preciso especular se eram dos homens ou dos anjos. Lucas deixa claro que os "galileus"[3] (no caso os apóstolos e outros que estavam na casa) de Atos 2.7 falavam as línguas das nações presentes naquela festa (At 2.5-11).[4] São línguas conhecidas, faladas em regiões que vão desde a Pérsia, no Oriente, até Roma, no Ocidente. Segundo Marshall, "a história ensina que línguas humanas inteligíveis são significativas, não as línguas ininteligíveis como as frequentemente encontradas na glossolalia moderna ou como as que usualmente pensa-se ter sido faladas em Corinto".[5]
De acordo com Kistemaker, não podemos equiparar o acontecimento do Pentecostes com o falar em línguas de Corinto. Os crentes que falam em outras línguas no Pentecostes não o fazem para edificação da igreja (diferente da fala extática [1Co 14]). Enquanto na igreja dos coríntios a fala extática deve ser interpretada, no Pentecostes os ouvintes não necessitam de intérpretes porque podem ouvir e são capazes de compreender cada um sua própria língua.[6]
É provável que o conteúdo das línguas faladas em Atos 2 consistisse da mensagem profética da justiça e graça de Deus a todos os povos, línguas e nações, conforme sugere Pedro em sua pregação de Atos 2.14-41. Quanto ao propósito das línguas faladas em Atos 2, está evidente que elas focavam a obra missionária e evangelística, e não especificamente a edificação particular da igreja ou dos seus membros individuais (cf. At 2.5,8).[7]
Enquanto em Babel (Gn 11.1-9) houve confusão e divisão, em Jerusalém foi proclamada uma só mensagem em muitas línguas. A mensagem da unidade e universalidade em Cristo Jesus. Moisés (Dt 28.49) e Isaías (Is 28.11) profetizaram as deportações de Israel e Judá por nações de língua estrangeira (o que aconteceu no ano 722 a.C. com o cativeiro assírio e em 587/6 a.C. com o cativeiro babilônico, respectivamente) por causa do pecado e desobediência do povo da aliança. Entretanto, em Atos 2 as línguas foram sinais explícitos da bênção de Deus para todas as famílias da terra.






[1] Conforme Donald Guthrie (In: Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 541), “A origem da Igreja Cristã deve ser traçada até o Pentecostes. Foi esse evento que iniciou a era da igreja, que também pode ser considerada como a era do Espírito”.
[2] O texto de Atos 2.4 afirma categoricamente que todos os que foram cheios do Espírito Santo falavam em outras línguas, e não apenas eram ouvidos em outras línguas (cf. At 2.6-8,11).
[3] Você achará uma boa análise do termo "galileus" de Atos 2.7 em C. S. Mann, Pentecost in Acts. In: Anchor Bible: The Acts of the Apostles. New York: Doubleday & Co., 1967, p. 271-275.
[4] Em Atos 2.3,4,11 a palavra grega utilizada para línguas é glossa, mas em 2.6,8 o termo usado é dialékto, de onde vem nossa palavra portuguesa “dialeto”. O contexto deixa claro que pelo menos em Atos 2 as línguas faladas eram dialetos humanos.
[5] I. Howard Marshall, The Significance of Pentecost. In: Scottish Journal Theology. Scottish Academic Press, N0 4, 1977, p. 357. Para uma distinção entre a experiência de línguas em Atos quando comparada com a de 1Coríntios, consulte Antony A. Hoekema, Holy Spirit Baptism. Grand Rapids: W. B. Eerdmans, 1973, p. 48-49.
[6] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 111.
[7] Cf. I. Howard Marshall, Atos: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 50. Veja também Paul E. Pierson, Atos Que Contam. Londrina: Descoberta, 2000, p. 19, 43, 78-83, 179-180.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A imaginação

Josivaldo de França Pereira


Aurélio define imaginação como 1. Faculdade que tem o espírito de representar imagens; fantasia. 2. Faculdade de evocar imagens de objetos que já foram percebidos; imaginação reprodutora. 3. Faculdade de formar imagens de objetos que não foram percebidos, ou de realizar novas combinações de imagens: imaginação criadora. 4. Faculdade de criar mediante a combinação de ideias. 5. A coisa imaginada. 6. Criação, invenção. 7. Cisma, fantasia, devaneio. 8. Crença fantástica; crendice; superstição. 9. Invenção ou criação construtiva, organizada (por oposição a fantasia, invenção arbitrária).
Na filosofia, a imaginação é uma das cinco faculdades do intelecto, junto com o juízo, a percepção, a memória e a razão. Os racionalistas opunham a imaginação à razão. Em geral eles entendiam que a imaginação é uma qualidade secundária diante da razão. Immanuel Kant (1724-1804) não via a imaginação como uma faculdade fundamental ou foco central.[1] Jean-Paul Sartre (1905-1980) publicou uma obra chamada O imaginário. Nesse livro Sartre segue a visão racionalista quando afirma que a imaginação é uma qualidade secundária do subconsciente em relação à consciência, embora defenda, ao mesmo tempo, que a imagem é uma consciência.[2]
Alguém disse que as maiores descobertas científicas envolvem grandes saltos de imaginação.[3] Albert Einstein (1879-1955), o pai da teoria da relatividade, era bem conhecido por sua mente imaginativa. Descobrir a lei da gravidade que superaria a teoria de Isaac Newton (1642-1727) foi uma tarefa extremamente difícil, mas Einstein tinha a seu favor o velho e bom costume da imaginação. O que para nós seria “sonhar acordado”, ele chamava de experiência imaginária. Sua compreensão da lei da gravidade surgiu num desses momentos. Quando ele estava dentro de um elevador supôs um homem descendo a toda velocidade nele. O que aconteceria com o homem antes da máquina elevatória chegar lá embaixo?
O próprio Einstein escreveu: “A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo inteiro, estimulando o progresso, dando à luz a evolução. Ela é, estritamente falando, um fator real na pesquisa científica”.[4] E na música, não é surpresa que uma das canções mais belas de todos os tempos chama-se Imagine, composta e interpretada por John Lennon (1940-1980). Um convite para refletirmos acerca de uma sociedade melhor.
Ben Carson (1951-) é um médico negro norte-americano que obteve fama internacional como neurocirurgião pediátrico. Quando criança Carson tinha dificuldade no aprendizado e se considerava “burro”. No filme Mãos Talentosas – A História de Ben Carson, sua mãe, uma diarista analfabeta, diz a ele: “Você precisa enxergar além do que vê”. Já estava formado, mas foi imaginando uma torneira de água, abrindo e fechando, que Carson compreendeu como separar duas crianças gêmeas siamesas unidas pela cabeça sem que houvesse risco de hemorragia.
Uma amiga minha me disse que na psicologia cognitivo comportamental imaginação (ou imaginar) é a capacidade que o cérebro humano tem de representar situações vividas e/ou criar, simular situações. Nosso cérebro não diferencia as situações reais das imaginárias. Ele trabalha com ambas da mesma maneira, pois é um excelente simulador.[5]
Nas Escrituras o verbo imaginar aparece onze vezes, sendo na maioria delas de forma negativa, para se referir aos pensamentos vãos do ser humano. Temos talvez uma exceção ao sentido negativo do verbo no Antigo Testamento, quando a soberba Babilônia presumia o bem para si própria. Contudo, o profeta Isaías declarou que o pior estava por vir contra ela: “Pelo que sobre ti virá o mal que por encantamentos não saberás conjurar; tal calamidade cairá sobre ti, da qual por expiação não te poderás livrar; porque sobre ti, de repente, virá tamanha desolação, como não imaginavas” (Is 47.11). Seja como for, “a Babilônia estava impotente para impedir o dia divino de prestação de contas”.[6]
Em toda a Bíblia o substantivo imaginação ocorre uma única vez. Novamente a ideia negativa está presente. Paulo anuncia aos gregos de Atenas que a idolatria é fruto da mente pecadora: “Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem” (At 17.29).
John Stott (1921-2011) sumariza Atos 17.29 dizendo que “toda idolatria é uma tentativa de minimizar o abismo entre o Criador e suas criaturas, para colocá-lo sob nosso controle. E mais do que isso, ela inverte as posições entre Deus e nós, de modo que, em vez de reconhecermos humildemente que Deus nos criou e nos governa, temos a ousadia de imaginar que podemos criar e governar Deus”.[7]




[1] Consulte Jane Kneller, Kant e o Poder da Imaginação. São Paulo: Madras, 2010, p. 111-139.
[2] Jean Paul-Sartre, O Imaginário: Psicologia Fenomenológica da Imaginação. Série Temas Filosofia e Psicologia. Vol. 46. São Paulo: Ática, 1996, p. 11-20.
[3] Cf. Legados da Antiguidade – Einsteins do Passado. In: The History Channel Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=4bs2nQPSL7A&t=15s. Acesso em junho de 2020.
[4] Albert Einstein, On Cosmic Religion and Other Opinions & Aphorisms. Mineola: Dover Publications, 2009, p. 97.
[5] Erileide Ferreira Alves, psicóloga clínica graduada em psicologia e pós-graduada em neurociências e psicologia aplicada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Informação recebida via MSN em 20/05/2020.
[6] R. N. Champlin, O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 5. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 2923.
[7] John Stott, A Mensagem de Atos. 2ª ed. São Paulo: ABU, 2015, p. 323.

O dom de línguas em 1Corintios 14

Josivaldo de França Pereira

O texto bíblico de 1Coríntios 14 trata dos dons de línguas e profecias. Os autores J. G. S. S. Thomson e Walter Elwell resumem a natureza do dom de línguas (ou “variedades de línguas” [1Co 12.10,28]) de 1Coríntios 14 em cinco proposições:
(1) A língua em que a pessoa falava era ininteligível e, portanto, não edificava a assembleia cristã (vv. 2-4);
(2) A língua edificava quem a falava (v. 4);
(3) A língua (γλώσσα [glossa]) não era um idioma estrangeiro (φωνς [phonês], vv. 10-12);
(4) Aquele que falava perdia o controle das faculdades intelectuais (vv. 14-15), sendo a língua provavelmente uma série extática de exclamações desconexas em tom agudo;
(5) Aquele que falava em línguas dirigia-se a Deus, a quem provavelmente oferecia oração e louvor (vv. 14-17).[1]
Observe a proposição de número 3: a língua falada na igreja de Corinto não era um idioma estrangeiro. Alguns pesquisadores se apressam em afirmar que as línguas proferidas em 1Corintios 14 são as mesmas faladas em Atos 2, visto que Paulo usa em 1Corintios 14 o mesmo termo grego γλώσσα (glossa) para línguas ou dialetos estrangeiros de Atos 2.4,11.
A dificuldade com esta afirmação de alguns pesquisadores é que no grego nem sempre um mesmo termo tem significado idêntico. Tomemos como exemplo o adjetivo νωθεν (ánothen = de novo, do alto, de cima). Em João 3.3,5 ele é traduzido como “de novo", mas está claro pelo contexto que Jesus se refere a um nascimento que vem do céu. No entanto, νωθεν também pode significar “desde o primeiro”, “desde o início” (Lc 1.3; At 26.5).
No caso do substantivo γλώσσα, ele aparece em dois versículos de Atos, na mesma passagem bíblica, com sentidos diferentes. Em Atos 2.3 γλώσσα equivale às línguas como de fogo; e em 2.4 às línguas ou dialetos estrangeiros. Como sabemos que em Atos 2.4 “falar em outras línguas” é falar em outros dialetos humanos? Por causa dos versos 6 e 8, respectivamente: “Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua”; “E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?”. O vocábulo grego para “língua” em Atos 2.6,8 é διαλέκτ (dialékto). Em Atos 2.11 Lucas volta a usar glossa como sinônimo de dialékto.
A palavra γλώσσα de 1Corintios 14 deve ser estudada à luz de φωνς (sons/vozes, 1Co 14.10,11) e não conforme os vocábulos γλώσσα e διαλέκτ de Atos 2. Parece ter havido em Corinto um tipo de êxtase em que é proferido algo que não representa qualquer idioma, mas que pode ser constituído apenas de “sons” ou “vozes” incompreensíveis (cf. At 22.9).[2]
Além do mais, as audiências da igreja de Corinto e do Pentecostes de Atos 2 eram diferentes em suas características. O público de Atos 2 era de pessoas internacionais que falava várias línguas estrangeiras (cf. At 2.9-11); o de Corinto era composto por crentes de uma igreja local. Não eram pessoas internacionais que falavam várias línguas estrangeiras.[3]
O comentário de Simon Kistemaker é pertinente. De acordo com ele, não podemos equiparar o evento do Pentecostes com o falar em línguas na igreja de Corinto. Os crentes que falam em outras línguas no Pentecostes não o fazem para edificação da igreja (diferente da fala extática [1Co 14]). Enquanto na igreja dos coríntios a fala extática deve ser interpretada, no Pentecostes os ouvintes não necessitam de intérpretes porque podem ouvir e são capazes de compreender cada um sua própria língua.[4]
Thomson e Elwell dizem na proposição de número 4 que aquele que falava em línguas na igreja de Corinto perdia o controle das faculdades intelectuais. Correto, desde que não se entenda o crente estando totalmente fora de si; pois, segundo o apóstolo Paulo, não é apenas o espírito do profeta que está sujeito ao próprio profeta (1Co 14.32), mas quem fala em línguas também, como se lê: “No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus” (1Co 14.27,28).
Somente duas ou quando muito três pessoas podem falar em línguas, contanto que alguém interprete. O que ocorre na glossolalia das igrejas carismáticas brasileiras e mundiais de hoje parece bem diferente. Ao contrário do que vemos na atualidade, Paulo era preocupado com a ordem e decência interna do culto e com a imagem externa da igreja (1Co 14.23,40). Além disso, também não deixa de ser questionável o tipo de línguas faladas nas igrejas atualmente. A glossolalia se não for de Deus é do homem ou do Maligno.
Minha conclusão é que as línguas proferidas em 1Corintios 14 não são dialetos estrangeiros como em Atos 2, mas um instrumento especial de comunicação entre Deus e os crentes.[5] As profecias eram dirigidas às pessoas; as línguas a Deus. As línguas edificavam a igreja desde que fossem interpretadas.[6]





[1] J. G. S. S. Thomson e Walter A. Elwell, Dons Espirituais. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 497. Inverti um pouco a ordem da numeração original para seguir a sequência bíblica de 1Coríntios 14.
[2] Cf. Russell Norman Champlin, Dons Espirituais. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 2. 12ª ed. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 222.
[3] Cf. Rev. Sang Won Lee, Batismo e Plenitude do Espírito Santo. Palestra ministrada na 25ª Semana Teológica do Seminário Presbiteriano de Jesus de 11 a 14 de fevereiro de 2020. Obra não publicada, p. 51-52.
[4] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 111.
[5] Cf. Lee, p. 53. Veja 1Coríntios 14.2,4,13,14,28.
[6] Consulte Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 720.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O que Jeremias 17.5 realmente significa?

Josivaldo de França Pereira

Em Jeremias 17.5 está escrito: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!”. Tenho acompanhado nas redes sociais a constante citação desse texto para se afirmar que não devemos confiar no ser humano.
Mas será que a referida passagem bíblica quer dizer isso mesmo? Não, não quer. Um olhar atento para o versículo nos fará perceber a resposta. Confiar no homem em Jeremias 17.5 é o mesmo que fazer da carne mortal o seu braço e apartar o seu coração do Senhor.
Em outras palavras, o texto declara que não devemos deixar de confiar em Deus para confiar no homem, ou se afastar do Senhor para confiar no ser humano. Não diz que não podemos confiar no homem, mas que não devemos confiar nele cega e incondicionalmente.
A confiança faz parte do relacionamento humano. Sem confiança no outro seria praticamente impossível o convívio entre as pessoas. Imagine o marido não confiando na esposa e vice-versa, o sócio não confiando no amigo, o viajante não confiando no condutor, etc.
O apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios, disse: “Alegro-me porque, em tudo, posso confiar em vós” (2Co 7.16). E ainda aos tessalonicenses: “Nós também temos confiança em vós no Senhor, de que não só estais praticando as coisas que vos ordenamos, como também continuareis a fazê-las” (2Ts 3.4).
Mark Dever comentou: “Para vivermos como Deus tencionou que vivamos, temos de ser capazes de confiar nele e naqueles que ele criou à sua imagem”.[1] E mais: “[...] a capacidade de confiar é um componente essencial do reflexo da imagem de Deus e do agir nos relacionamentos desta vida, nos quais esta imagem se manifesta e se expressa”.[2]
O que aprendemos em Jeremias 17.5 é que não podemos confiar de forma exclusiva e absoluta em nosso semelhante. Em Deus, sim. Nele podemos e devemos confiar plenamente (cf. Sl 37.5). No ser humano continue confiando, porém, confie desconfiando, por assim dizer.
Além disso, Jeremias 17.5 deve ser lido à luz de Jeremias 17.7: “Bendito o homem que confia no SENHOR e cuja esperança é o SENHOR”; e de Jeremias 17.9: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?”.




[1] Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável. São José dos Campos: Fiel, 2007, p. 266.
[2] Ibidem.