domingo, 28 de junho de 2020

O pão na oração do Pai Nosso

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”
(Mt 6.11)

Josivaldo de França Pereira

Há uma tendência cada vez maior nos dias de hoje em se espiritualizar o pão da oração do Pai Nosso (também chamada de oração do Senhor e Dominical).  Argumenta-se que todas as demais petições dela são espirituais (Mt 6.9-13; Lc 11.2-4), levando a concluir que o “pão nosso” deva ser algo espiritual, como por exemplo, o alimentar-se da palavra do Senhor, visto que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (cf. Dt 8.3; Mt 4.4; Lc 4.4).
Contudo, o fato de todas as outras petições da oração do Senhor serem espirituais (como dizem), só reforça a ideia de que o pão deve ser entendido fisicamente. Além disso, pedir ao Pai que nos dê o pão nosso de cada dia não é ser igualmente espiritual? Recordemos que o Senhor Jesus também se preocupou com o nosso bem-estar material, quando disse que não devemos andar ansiosos pela nossa vida quanto ao comer, beber e vestir porque o Pai celestial é quem supre todas as nossas necessidades físicas (Mt 6.25-34). E quando os discípulos quiseram despedir as multidões que passaram o dia inteiro ouvindo o Mestre, ele somente as dispensou após serem alimentadas com pão e peixe (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; 8.1-10; Lc 9.10-17; Jo 6.1-14).
De acordo com James Packer, “Alguns consideram as petições pelas necessidades materiais como orações de baixo nível, como se Deus não estivesse interessado no lado físico da vida, e, por conseguinte, nós também não deveríamos estar. Todavia, essa hiperespiritualidade é, na verdade, apenas uma passagem não espiritual para o ego [cf. Cl 2.23]”.[1] E mais: “Deus se importa com nossas necessidades físicas assim como com as espirituais. Para Deus, a categoria básica das necessidades humanas compreende o espiritual e o material”.[2]
Como os Reformadores Lutero e Calvino, e os autores dos catecismos de Heidelberg, Maior e Breve de Westminster entenderam a palavra “pão” na oração do Pai Nosso? Parece que Martinho Lutero (1483-1546) experimentou dois momentos, duas fases, na interpretação do pão de Mateus 6.11 e Lucas 11.3.
A primeira interpretação de Lutero é mais alegórica e está no livro O Pai Nosso. Nessa obra Lutero insiste que o pão é a palavra de Deus ou Cristo: “Cristo é o pão, a palavra de Deus também é o pão, mas se trata, no entanto, de uma coisa só e de um só pão; porque Cristo está na palavra, e a palavra nele; e crer na palavra é comer o pão. E a quem Deus conceder isto, esse viverá eternamente”.[3] Quanto à pergunta que ele próprio faz: “Não rogamos, por acaso, ao mesmo tempo, pelo pão material?”, Lutero apenas diz: “Sim, também se pode subentender o pão material, mas, sobretudo, o pão espiritual das almas: Cristo”.[4] E ele finaliza: “Pois se trabalhamos humildemente, segundo o mandamento, Deus já fará o restante”.[5]
Mas em seu Catecismo Menor notamos um entendimento bem diferente. Nele Lutero apresentou uma vasta lista para explicar o sentido da palavra pão: “comida, bebida, vestuário, calçado, casas, propriedades rurais, campos de esporte, estâncias de gado, dinheiro, outros bens, bom casamento, bons filhos, boas e fiéis autoridades, um governo justo, um tempo favorável (não muito quente nem muito frio), saúde, honras, bons amigos, vizinhos fiéis”.[6] Karl Barth, após citar a listagem de Lutero, comenta: “É certamente permitido pensar no ‘pão nosso de cada dia’ neste sentido largo da expressão. Não obstante, insisto em sublinhar que é recomendável não perder de vista a palavra original ‘pão’ em toda a sua simplicidade”.[7]
João Calvino (1509-1564) discorda de Lutero tanto na alegorização quanto na ampla definição de pão na oração do Senhor. De acordo com o Reformador francês, na quarta petição “pedimos de Deus todas as coisas em geral de que o uso do corpo necessita sob os elementos deste mundo [Gl 4.3], não somente com o que sejamos alimentados e vestidos, mas também tudo quanto ele mesmo antevê que nos conduz a que comamos nosso pão em paz. Em suma, por esta petição nos entregamos ao seu cuidado e nos confiamos à sua providência, para que nos dê alimento, sustente e preserve”.[8]
O Catecismo de Heidelberg, publicado por Zacarias Ursino e Gaspar Oleviano em 1563; os catecismos Maior e Breve da Assembleia de Westminster (1643-1649) seguem os argumentos elucidativos de Calvino. O primeiro deles pergunta: “Qual é a quarta súplica?”. Resposta: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje; isto é: digne a ti prover-nos de tudo o que é necessário para o corpo, a fim de que, por isso, reconheçamos que tu és a única fonte de todo bem, e que nem nossas necessidades, nem trabalho, nem inclusive os bens que tu nos concedes, sejam proveitosos a nós, antes nos prejudiquem, sem a tua bênção”.[9]
No Breve Catecismo de Westminster, Pelo quê oramos na quarta petição?, que é: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, pedimos que da livre dádiva de Deus recebamos uma porção suficiente das coisas boas desta vida, e gozemos com elas das suas bênçãos”.[10]
E no Catecismo Maior de Westminster, O que pedimos na quarta petição? “Na quarta petição, que é: ‘O pão nosso de cada dia nos dá hoje’ – reconhecendo que, em Adão e pelo nosso próprio pecado, perdemos o nosso direito a todas as bênçãos exteriores desta vida, e que merecemos ser, por Deus, totalmente privados delas, tendo elas se transformado em maldição para nós, no seu uso; que nem elas podem de si mesmas nos sustentar, nem nós podemos merecê-las nem pela nossa diligência consegui-las, mas que somos propensos a desejar, obter e usar delas ilicitamente –, pedimos, por nós mesmos e por outros, que tanto eles como nós, dependendo da providência de Deus, de dia em dia, no uso de meios lícitos possamos, do seu livre dom e conforme parecer bem à sua sabedoria paternal, gozar de uma porção suficiente desses favores e tê-los continuados e abençoados para nós em nosso santo e confortável uso e contentamento; e que sejamos guardados de tudo quanto é contrário ao nosso sustento e conforto temporais”.[11]
Conforme vimos até aqui, podemos concluir que o pão na oração Dominical tem três sentidos fundamentais. O primeiro é o de pão mesmo (a dieta básica na cultura judaica e de outros povos); o segundo envolve toda forma de alimento (sólido ou líquido) e o terceiro inclui a saúde do corpo, o ganha pão (trabalho) e todo tipo de provisão material necessário para nossa subsistência física e manutenção elementar. Segundo Packer, “só devemos pedir pelo pão que necessitamos; ou seja, pelo suprimento das necessidades, não dos luxos que não são essenciais”.[12] E Barth lembrou bem: “Em ‘pão nosso’, alguns dos Reformadores englobaram (e podemos fazê-lo com eles) tudo o que temos necessidade para viver”.[13]
"Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (1Co 10.31).




[1] J. I. Packer, A Oração do Senhor. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 64.
[2] Ibidem. Itálico do autor.
[3] Martinho Lutero, O Pai Nosso. São Paulo: Fittipaldi, 1965, p. 95. Pensamento semelhante foi compartilhado por Tertuliano, Cipriano e Agostinho. Consulte John R. W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte. Série A Bíblia Fala Hoje. São Paulo: ABU, 1986, p. 152-153.
[4] Idem, p. 99.
[5] Idem, 100.
[6] Citado por Karl Barth, O Pai Nosso: A oração que Jesus ensinou aos discípulos. São Paulo: Novo Século: 2003, p. 55.
[7] Ibidem.
[8] Institutas, III,xx,44. Veja também Juan Calvino, Breve Instruccion Cristiana. 3ª ed. Paises Bajos: Felire, 1990, p. 63-64.
[9] El Catecismo de Heidelberg, Pregunta y Respuesta 125 (cf. Dt 8.3; Sl 37.16; 55.22; 62.10; 104.27; 127.1,2; 145.15; 146.3; Jr 17.5,7; Mt 6.26; At 14.17; 17.25; 1Co 15.58; Tg 1.17).
[10] O Breve Catecismo de Westminster, Pergunta e Resposta 104 (cf. Pv 10.22; 30.8,9; 1Tm 6.6-8).
[11] O Catecismo Maior de Westminster, Pergunta e Resposta 193 (cf. Gn 3.17; 28.20,21; 32.10; Dt 8.3,18; Sl Sl 90.17; 144.12-15; Pv 10.22; 30.8,9; Jr 6.13; Lm 3.22; Os 12.7; Mt 6.11; 1Tm 4.4,5; 6.6-8; Tg 4.3,13,15).
[12] Packer, p. 66. Ênfase do autor. Veja também Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: San Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 348.
[13] Barth, p. 54.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Bem-aventurados os que choram

Josivaldo de França Pereira


As bem-aventuranças (ou beatitudes) são a porta de entrada de todo o chamado Sermão da Montanha (ou do Monte) de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (Mt 5-7). O Sermão da Montanha foi ministrado por Cristo aos discípulos dele: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; e ele passou a ensiná-los, dizendo:" (Mt 5.1,2; destaques acrescentados).
Em linhas gerais, os bem-aventurados não são todas as pessoas sem exceção, mas todas as pessoas sem distinção. Jesus viu as multidões, porém, passou a ensinar, ao menos a princípio, unicamente seus discípulos (Mt 5.1,2; 7.28,29). Num sentido amplo, os discípulos de Cristo são provenientes de toda tribo, língua, povo e nação (cf. Ap 5.9).
Jesus proferiu nove bem-aventuranças (cf. Mt 5.3-12). Em todas elas o Mestre fala sobre o caráter do cristão. Na segunda delas ele diz: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5.4).
A bem-aventurança de Mateus 5.4 não é pelo choro em si, mas pelo consolo que o bem-aventurado recebe. A alegria na provação não é pela disciplina propriamente, mas pelos seus resultados (cf. Hb 12.11; Tg 1.2-4,12; 1Pe 1.6; 4.12-14).
A que choro Jesus se refere na bem-aventurança? É ao choro de um modo geral ou a algum tipo específico de pranto? Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) – autor de uma das maiores obras sobre o Sermão do Monte e tantos outros livros de peso – afirma que é o choro pelo pecado.
Entendo que o pecado é algo abominável pelo qual devemos chorar intensa e constantemente; todavia, sem querer diminuir de jeito nenhum a gravidade do pecado e a grande contribuição de Martyn Lloyd-Jones à igreja cristã, o choro retratado na bem-aventurança não se restringe ao tema do pecado apenas.
Não há nada no versículo nem no seu contexto que aponte para o pecado como objeto exclusivo do nosso choro; seja pelo pecado pessoal, da igreja ou do mundo.
A Bíblia, como um todo, enfatiza a integralidade da estrutura humana (cf. Sl 116.8; 1Ts 5.23; Hb 4.12). Temos nas Escrituras o choro pelo pecado sim, mas também por tudo que machuca e angustia um filho ou filha de Deus – física, emocional ou espiritualmente. Eis alguns exemplos:
“Deus, porém, ouviu a voz [do choro] do menino; e o Anjo de Deus chamou do céu a Hagar e lhe disse: Que tens, Hagar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino, daí onde está.” (Gn 21.17);
“... Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã.” (Sl 30.5);
“Converteste o meu pranto em folguedos; tiraste o meu pano de saco e me cingiste de alegria,” (Sl 30.11);
“Pois Livraste... das lágrimas os meus olhos...” (Sl 116.8);
“Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.” (Sl 126.5);
“Vai e dize a Ezequias: Assim diz o SENHOR, o Deus de Davi, teu pai: Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas; acrescentarei, pois, aos teus dias quinze anos.” (Is 38.5);
“Regozijai-vos juntamente com Jerusalém e alegrai-vos por ela, vós todos os que a amais; exultai com ela, todos os que por ela pranteastes,” (Is 66.10);
“Então, a virgem se alegrará na dança, e também os jovens e os velhos; tornarei o seu pranto em júbilo e os consolarei; transformarei em regozijo a sua tristeza.” (Jr 31.13);
“Assim diz o SENHOR: Reprime a tua voz de choro e as lágrimas de teus olhos; porque há recompensa para as tuas obras, diz o SENHOR, pois os teus filhos voltarão da terra do inimigo.” (Jr 31.16);
“Ouviu-se um clamor em Ramá, pranto, [choro] e grande lamento; era Raquel chorando por seus filhos e inconsolável porque não mais existem.” (Mt 2.18);
“Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores!” (Lc 7.13);
“Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um." (At 20.31);
“Porque, no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida.” (2Co 2.4);
“E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” (Ap 21.4).
Não tenho como olhar para estas passagens bíblicas e, com sinceridade, dizer que o choro e as lágrimas relatados nelas são pelo pecado somente. Repito: não estou dizendo que não devemos chorar pelo pecado ou que a segunda beatitude não inclua o choro por ele.
O que estou reafirmando é que, diferentemente do entendimento de Martyn Lloyd-Jones, o choro no texto de Mateus 5.4 – no qual o cristão recebe a promessa da bem-aventurança do consolo divino – não é apenas pelo pecado, mas por tudo que aflige a vida do crente.

Pela lágrima vertida
E o consolo que é sem par,
Pelo dom da eterna vida
Sempre graças hei de dar.
(A. L. Storm – A. O. Denyszezuk)


domingo, 21 de junho de 2020

“Não vos enganeis...”

Josivaldo de França Pereira

"Não vos enganeis...". Essa cláusula, do jeito que está, ocorre quatro vezes no Novo Testamento.[1] No grego ela é formada com duas palavras: Me planasthe. A frase “não vos enganeis” foi proferida três vezes por Paulo e uma vez por Tiago.[2] Com certeza, estamos diante de uma das mais necessárias e urgentes expressões de advertência da Bíblia aos dias de hoje, tanto para a igreja de Cristo quanto para a sociedade não-cristã. Eu a colocaria naquele nível de declarações semelhantes a “o perigo da autoilusão” e “sincero mas errado", ditas por Martyn Lloyd-Jones em outros lugares.
Tiago escreve: “Não vos enganeis, meus amados irmãos” (Tg 1.16). Ele faz do seu “não vos enganeis” uma ponte de ligação entre dois ensinamentos distintos, uma espécie de transição entre duas situações diferentes: uma negativa e outra positiva, por assim dizer. Nos versos 13 a 15 ele ressalta: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”. Do outro lado da ponte está: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). A graça divina nos aguarda do outro lado quando vencemos a tentação.
Em 1Coríntios 15.33 o apóstolo Paulo salienta: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes”.[3] À primeira vista esse versículo pode parecer desconexo com o restante do capítulo 15, que trata da ressurreição dos mortos. Contudo, o verso tem tudo a ver. O que ele está ensinando é que se tivermos um entendimento errado da doutrina da ressurreição vamos comprometer toda a nossa vida cristã. Doutrina e prática bíblicas devem caminhar juntas sempre. São os dois lados da mesma moeda. Leia Mateus 7.24-27; João 13.17; Tiago 1.22-25. Na carta aos Romanos, no capítulo 1, Paulo argumenta que a falta do verdadeiro conhecimento e adoração a Deus conduz à libertinagem e imoralidade.
Na epístola aos Gálatas 6.7 está escrito: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará”.  Nunca o ser humano zombou tanto de Deus como agora. É impressionante o quanto Jesus tem sido afrontado e escarnecido por ímpios libertinos! Cada ano que passa as pessoas parece disputar quem vai esculachar mais com Jesus Cristo no próximo carnaval ou parada gay. De Deus não se zomba, afirma Paulo. O autor da carta aos Hebreus complementa, dizendo: “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo" (Hb 10.31). O nome de Cristo não deve fazer parte de brincadeiras, piadas e folias.
De todos os “não vos enganeis" apresentados até o momento, um dos mais ignorados e menos levado a sério por muitos de nossa geração é o de 1Coríntios 6.9,10: “Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus” (cf. Gl 5.19-21; Ef 5.5).[4] Paulo não faz distinção entre pecadores. Para ele, todos estão sob a mesma categoria de “injustos”. Talvez a passagem bíblica que melhor interpreta o termo injustos e sua classe abominável de 1Corintios 6.9,10, Gálatas 5.19-21 e Efésios 5.5 seja Romanos 1.18: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (cf. 2Ts 2.10-12).
Tem muita gente iludida, achando que irá para o céu apesar de suas práticas pecaminosas. Gente que diz se sentir bem com a vida que leva, posto que sua consciência não os acusa. Na realidade, é porque a mente deles está cauterizada e acalentada pelo pecado. O apóstolo João escreveu: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9). E no livro do Apocalipse ele registrou, lá no capítulo sobre o novo céu e a nova terra: “Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte” (Ap 21.8; cf. 21.27; 22.15). Feliz daquele que se livra do inferno a tempo! Leia 1Coríntios 6.11; 1Pedro 4.1-6.
E para aqueles que se autoenganam pensando que não tem problema algum o crente falar palavrão, eis o que dizem o Senhor Jesus e o apóstolo Paulo, respectivamente: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no dia do juízo; porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado” (Mt 12.36,37). “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe; e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29; cf. 5.3,4). A expressão palavra torpe significa "linguagem obscena do vosso falar" em Colossenses 3.8. Paulo recomendou a seu filho na fé, Timóteo: "Evita, igualmente, os falatórios inúteis e profanos, pois os que dele usam passarão a impiedade ainda maior" (2Tm 2.16). 

A Bíblia é verdadeira em tudo; portanto, não nos enganemos.




[1] De acordo com a versão Almeida Revista e Atualizada (ARA).
[2] Repito: “do jeito que está”. Não me refiro às variações dela no Novo Testamento (cf. 1Co 3.18; Tg 1.22).
[3] Paulo está citando o poeta grego Menandro (342 a.C.-291 a.C.).
[4] A Nova Versão Internacional (NVI) traduz “nem efeminados, nem sodomitas” de 1Coríntios 6.9, assim: “nem homossexuais passivos ou ativos”.

sábado, 20 de junho de 2020

O zelo de Saulo

Josivaldo de França Pereira

Por três vezes na Bíblia o apóstolo Paulo fala da sua vida pregressa como sendo de uma pessoa zelosa: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje” (At 22.3). “E, na minha nação, quanto ao judaísmo, avantajava-me a muitos de minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais” (Gl 1.14). “Bem que eu poderia confiar também na carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamin, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível” (Fp 3.4-6).
O zelo normalmente é definido como grande cuidado e preocupação com alguém ou alguma coisa. Conquanto Paulo em algumas ocasiões tenha falado de zelo (ou ser zeloso) nesse sentido (cf. Rm 12.11; 1Co 12.31; 14.1,39; 2Co 7.7,11; 8.22; 9.2; 11.2; Gl 4.17,18; 1Tm 5.10; Tt 2.14), nas passagens bíblicas citadas (At 22.3; Gl 1.13,14; Fp 3.4-6) o conceito é bem diferente. O apóstolo, no seu zelo de outrora, se enquadrava naquela declaração que ele fez sobre os judeus em sua carta aos Romanos: “Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento” (Rm 10.2). E muito mais com aquela dirigida à igreja de Corinto, dizendo que o cristão deve fugir da idolatria: “Ou provocaremos zelos [ciúmes] no Senhor? Somos, acaso, mais fortes do que ele?” (1Co 10.22).
Em Jerusalém, Paulo se pronuncia aos judeus como “sendo zeloso para com Deus”, e acrescenta: “assim como todos vós o sois no dia de hoje” (At 22.3). A palavra zeloso traz consigo sugestões de “perseguidor”. Ele discorre sobre o zelo que possuía antes de sua conversão, quando perseguia a Igreja e pensava estar tributando culto a Deus (cf. Jo 16.2; Rm 10.2; Fp 3.6). Paulo é direto e franco ao afirmar que os judeus a quem ele se reporta têm o mesmo tipo de zelo mal-direcionado. Eles demonstraram seu zelo por Deus momentos antes, quando quiseram matar o apóstolo no pátio dos gentios. Paulo não os acusa, pois ele sabe que o zelo deles é resultado da ignorância (cf. At 3.17).[1]
No texto de Gálatas 1.13,14, ele fala de seu reconhecido procedimento outrora no judaísmo, como sobremaneira perseguia a Igreja de Deus e a devastava; e quanto ao judaísmo avantajava-se a muitos de sua idade, sendo “extremamente zeloso das tradições” de seus pais.  Esta era a condição de Saulo de Tarso antes de sua conversão: um fanático inveterado, completamente dedicado ao judaísmo e à perseguição de Cristo e da Igreja. Um homem nessa condição mental e emocional de maneira alguma mudaria de opinião, nem se deixaria influenciar por outras pessoas. Nenhum reflexo condicionado ou qualquer outro artifício psicológico poderia converter um homem assim. Apenas Deus poderia alcançá-lo – e foi o que ele fez![2]
Na carta aos Filipenses, o apóstolo declara: “quanto ao zelo, perseguidor da Igreja” (Fp 3.6).  Saulo foi um dos mais cruéis perseguidores aos primeiros cristãos. Em seu zelo pela lei, mal interpretada pelos escribas e fariseus (cf. Mt 23.23), respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, ou seja, a Igreja em seu sentido ecumênico, e executava seu programa de afronta e humilhação até em cidades estrangeiras, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres (At 9.1,2; 22.1-5; 26.9-15; 1Co 15.9).  Se o zelo perseguidor pudesse abrir as portas do céu, Paulo teria entrado direto nele! Também nesse particular, sua vantagem em relação aos judeus de sua idade era muito grande. Estes eram meros seguidores do judaísmo. Paulo teria sido um zeloso perseguidor da Igreja até à morte, se necessário.[3]
De acordo com James Packer, o que a proibição de idolatria implica é que o povo de Deus deve ser positiva e apaixonadamente dedicado à sua pessoa, causa e honra. O termo bíblico para esse tipo de devoção é zelo, às vezes chamado de zelo por Deus.[4] Saulo de Tarso teve zelo por Deus, mas sem entendimento. O zelo sem entendimento do jovem Saulo foi, segundo N. T. Wright, motivado por três acontecimentos históricos em Israel: o zelo de Finéias em Sitim (Nm 25), o extermínio dos profetas de Baal por Elias (1Rs 18) e a revolta dos Macabeus no Período Interbíblico (1Mc 1).[5] Todos eles relacionados à quebra do mandamento que diz: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3; Dt 5.7); "(porque não adorarás outro deus; pois o nome do SENHOR é Zeloso; sim, Deus zeloso é ele)" (Ex 34.14). "Porque o SENHOR, teu Deus, é fogo que consome, é Deus zeloso" (Dt 4.24).
Contudo, Saulo não fazia ideia de que perseguindo os cristãos ele perseguia o Cristo das Escrituras (At 9.5) e, ao ignorar o parecer de seu mestre, o rabino Gamaliel, “dai de mão a estes homens”, ele se achava “lutando contra Deus” (At 5.38,39). Mais tarde o experiente apóstolo Paulo escreveria ao jovem pastor Timóteo: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade” (1Tm 1.12,13).




[1] Cf. Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 380.
[2] Cf. John Stott, A Mensagem de Gálatas. Série A Bíblia Fala Hoje. São Paulo: ABU, 2014, p. 32.
[3] Cf. Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: Filipenses. Grand Rapids: SLC, 1981, p. 179.
[4] J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 160. Itálicos do autor.
[5] N. T. Wright, Paulo: Uma Biografia. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019, p. 43-56.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Unção com óleo: Uma reflexão teológica de Tiago 5.14

Josivaldo de França Pereira

“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor” (Tg 5.14).

Existem pelo menos quatro conceitos no entendimento da unção com óleo em Tiago 5.14: (1) O conceito sacramental; (2) O conceito medicinal; (3) O conceito consagratório e (4) O conceito simbólico espiritual.
De forma injustificada, a igreja católica romana aumentou o número dos sacramentos instituídos por Jesus Cristo de dois para sete. Em 526 d.C. ela adotou a extrema-unção supostamente baseada em Tiago 5.14 e Marcos 6.13. Logo de imediato podemos afirmar com toda certeza que as referidas passagens bíblicas não tratam da extrema-unção, nem qualquer outro texto bíblico fomenta tamanha heresia e invencionice católico-romana.
Simon Kistemaker entende que o significado da unção com óleo de Tiago 5.14 é medicinal. Ele alega que em várias passagens a Bíblia ensina que o azeite de oliva possui qualidades medicinais. E cita como exemplo a parábola do bom samaritano. Diz ele: “Veja o caso do samaritano que colocou óleo e vinho nas feridas do homem na estrada para Jericó – o óleo trazia alívio e o vinho era antisséptico (Lc 10.34)”.[1] É certo que nos tempos bíblicos o azeite de oliva era utilizado como medicamento e em Lucas 10.34 foi usado com esse fim; contudo, o ponto a ser considerado é se o conceito medicinal também deveria ser aplicado em Tiago 5.14.
Algumas questões levantadas por Douglas Moo parecem pertinentes aqui: “A dificuldade desta linha de pensamento é dupla. Primeiramente, não há evidências de que a unção com óleo fosse usada para qualquer problema médico – e por que mencionar apenas um remédio (embora muito usado), se tantas enfermidades diferentes podiam ser encontradas? Em segundo lugar, por que os presbíteros da igreja deviam fazer a unção, se o propósito dela era somente medicinal? Seguramente, outros já teriam feito isto, caso se tratasse de um remédio apropriado para a doença”.[2]
No entanto, Moo parece ser alvo de suas próprias indagações ao defender a unção de Tiago 5.14 como ato simbólico de consagração. “Ao orarem, os presbíteros podiam ungir a pessoa doente, a fim de simbolizar que ela estava sendo ‘separada’ para receber atenção e cuidado especiais de Deus”.[3] O argumento dele em favor desse conceito é que “No Antigo Testamento, frequentemente a unção é o símbolo da consagração de pessoas ou objetos para o uso e serviço de Deus”.[4] Ora, se a visita dos presbíteros era orar sobre o enfermo e ungi-lo com óleo a fim de curá-lo, supor que a unção visava a consagração ou "separação" do doente para um acolhimento especial de Deus, com base nas leis consagratórias do Antigo Testamento, soa forçado, até porque o contexto de Tiago 5.13-20 subentende que o enfermo já é amado do Senhor.
Guilherme Hendriksen, antecessor de Simon Kistemaker na série Comentários do Novo Testamento, não compartilha da interpretação deste nem de Douglas Moo, conforme sua exposição de Marcos 6.13. Mesmo após dizer que o médico e filósofo grego Galeno de Pérgamo (c. 129-217 d.C.) declarou: “O azeite é o melhor dos remédios para curar as enfermidades do corpo”, Hendriksen conclui que a unção com óleo de Marcos 6.13 “Era com toda probabilidade um símbolo da presença, graça e poder do Espírito Santo”.[5] 
Segundo Wayne Grudem, “A unção com óleo em Tg 5.14 deve ser compreendida como um símbolo do poder do Espírito Santo, não simplesmente como remédio, porque o óleo não seria adequado como remédio em todas as doenças. [...] No Antigo Testamento, com frequência o óleo simboliza o Espírito Santo (veja Êx 29.7; 1Sm 16.13; cf. Sl 45.7), como parece ocorrer aqui também”.[6]
Augustus Nicodemus complementa: “Essa última interpretação, de que o uso do óleo é simbólico da ação curadora do Espírito, nos parece a mais correta, embora certamente não seja a unanimidade entre os estudiosos reformados. Mas fico com a interpretação de Calvino, de que era um uso simbólico: ‘não posso concordar com aqueles que pensam que óleo era usado como remédio nestes casos” (J. Calvino)’”.[7]
Nicodemus observa ainda que “É preciso aqui mencionar a posição completa do Reformador sobre esse assunto. Sua posição se encontra no comentário de Tiago in loco e nas Institutas. Para ele, o óleo simboliza o dom de curar, que ele acredita que permaneceu na Igreja somente durante o período apostólico. Como consequência, uma vez que a coisa simbolizada cessou, o símbolo deve também cessar. Assim, Calvino acha que o uso do óleo associado à oração pelos doentes não tem mais razão de ser e não deve ser praticado”.[8] Quanto a isso, concordo com Moo: “Apesar de Calvino, Lutero e outros expositores pensarem que a prática da unção, ao lado do poder da cura, se limitou à era apostólica, é duvidoso se tal restrição pode ser mantida. A recomendação de Tiago no sentido de que oficiais eclesiásticos regulares realizassem a prática parece deixar subentendida sua validade permanente para a igreja".[9] Em outras palavras, se o ofício de presbítero continua até hoje, por que não a prática da unção com óleo?
Concluímos que, quanto  à interpretação da unção com óleo em Tiago 5.14, os conceitos sacramental (extrema-unção) e ato simbólico de consagração ("separação") devem ser descartados; o conceito medicinal, questionado; e o conceito como símbolo de cura sobrenatural e poder terapêutico do Espírito Santo, recomendado.
As passagens bíblicas de Tiago 5.14 e Marcos 5.13 são suficientes para a prática da unção com óleo nos dias de hoje? Acredito que sim; no entanto, como ressalta Douglas Moo, “o fato de que muitas curas foram realizadas sem unção demonstram que a prática não é um acompanhamento necessário à oração pela cura. Os presbíteros que oram pelo doente podem utilizá-la, e Tiago claramente recomenda a prática; mas eles não precisam fazer isto”.[10]
De fato, em Tiago 5.14 a ênfase não está na unção com óleo, mas na oração. Os enfermos são curados pela oração da fé, confissão de pecados (se houverem cometido) e orações mútuas (Tg 5.15,16). A palavra oração e seus correlatos estão em todos os versículos de Tiago 5.13-18.






[1] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Tiago e Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 239.
[2] Douglas J. Moo, Tiago: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 176. Itálico do autor.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.
[5] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: San Marcos. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 246.
[6] Wayne Grudem, Teologia Sistemática. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 922 nota 30.
[7] Augustus Nicodemus Lopes, Tiago. Série Interpretando o Novo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 176.
[8] Ibidem, nota 8.
[9] Moo, p. 178.
[10] Ibidem. Itálicos do autor.

sábado, 6 de junho de 2020

Julgar ou não julgar?

Josivaldo de França Pereira

“Não devemos julgar!”. Quantas vezes você já ouviu essa declaração ou mesmo pensou e falou desse jeito? Esta maneira de cogitar e agir geralmente se baseia em apenas parte de um versículo da Bíblia – Mateus 7.1: “Não julgueis, para que não sejais julgados”, disse Jesus no chamado Sermão da Montanha. E prossegue nosso amado Senhor: “Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também” (Mt 7.2).
Certamente, em Mateus 7.1,2 o Mestre não está proibindo todo e qualquer exercício de julgamento, mas um tipo específico de julgamento – o juízo temerário (Mt 7.3,4). Um juízo temerário poderia ser definido com vários sinônimos e adjetivos, contudo, no contexto de Mateus 7 trata-se na verdade de um julgamento essencialmente moralista, desprovido de amor ao próximo. Moralismo é hipocrisia (Mt 7.5). A Escritura Sagrada não é um conjunto de normas moralistas. Em Mateus 7.1-5, Jesus ensina que quem pratica esta modalidade de juízo contra o próximo não olha para os seus próprios erros, que são da mesma natureza ou até piores comparados com o erro de quem ele acusa (cf. Rm 14.13; Tg 4.11,12).
Existe um adágio hermenêutico sábio e esclarecedor que diz: “Um texto fora do contexto é pretexto”. Quando alguém assevera que não devemos julgar conforme Mateus 7.1, ele não leva em consideração o contexto próximo da referida passagem bíblica, nem o contexto remoto dela, ou seja, o que a Palavra de Deus, como um todo, fala sobre julgar outra pessoa.
Na realidade, seria como se Jesus dissesse: “Não aponte o dedo de acusação contra alguém se você não tem moral para isso". Não queira ensinar como educar filhos se os seus são mal criados e delinquentes. Não queira falar como fazer bom uso do dinheiro se você é um esbanjador ou avarento. Não diga que a igreja precisa evangelizar e orar mais se você não faz uma coisa nem outra, e etc., etc. Em suma, não exija dos outros o que você não faz (cf. Mt 23.1-4).
Diferente do moralista é o homem espiritual. Assim escreve o apóstolo Paulo: “Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (1Co 2.15). O homem espiritual (expressão genérica para indicar alguém que tem Jesus no coração, independente do sexo) é uma pessoa acima de qualquer suspeita, por sua integridade e correção em todos os procedimentos. O homem espiritual pode emitir juízo acerca de todas as coisas e ninguém é capaz de julgá-lo ou acusá-lo, a não ser de forma injusta.
Os termos julgar e não julgar nunca devem ser observados somente no sentido estrito deles. O sentido amplo dessas palavras também é importante e significa que não podemos exercer julgamento sobre quem quer que seja (conhecido ou desconhecido; de perto ou de longe) se ao menos não temos razão moral para tanto. Ademais, ainda por uma questão moral (não de moralismo), o juízo justo e racional que professamos precisa ser executado com critério em qualquer espaço que estivermos. Por exemplo, se não filtrássemos os noticiários e notícias recebidos, quer no âmbito secular ou religioso, quão tremendo desastre seriam nossas avaliações!
Por isso, Paulo ordenou aos tessalonicenses: “julgai todas as coisas, retende o que é bom" (1Ts 5.21). E o evangelista Lucas ressaltou que os judeus de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica, “pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17.11). Aos coríntios o apóstolo ainda escreveria: “Falo como a criteriosos; julgai vós mesmos o que digo” (1Co 10.15).
No próprio capítulo 7 do Sermão da Montanha, o Senhor Jesus adverte contra os falsos profetas que se apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Ele afirma que pelos seus frutos serão conhecidos, posto que toda árvore boa produz bons frutos e a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus nem a árvore má produzir frutos bons. Como saberíamos quem são os falsos profetas se não houvesse reflexão, senso crítico e questionamento de nossa parte em relação a eles?
Segundo Martyn Lloyd-Jones, “a interpretação não pode ser verdadeira quando sugere que as palavras de Jesus, ‘não julgueis’, recomendam que sejamos pessoas caracterizadas por uma atitude frouxa e indulgente, diante de qualquer indivíduo que use o nome de ‘cristão’. Tal interpretação é inteiramente impossível”.[1]
Paulo orientou a igreja de Corinto, dizendo: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem” (1Co 14.29). O apóstolo do amor, João, também recomendou: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora” (1Jo 4.1). Tanto Paulo quanto João exortaram seus leitores a distinguirem cuidadosamente os ensinamentos do Espírito de Deus dos falsos ensinamentos (comparar com Jr 29.8,9; Mt 24.4; Ef 5.6; 1Tm 4.1).
Além disso, as igrejas evangélicas que mais padecem na atualidade são aquelas que deixam a desejar na disciplina eclesiástica. E o que é a disciplina eclesiástica senão juízo feito a um membro da igreja local, faltoso ou supostamente faltoso? Para chegar-se a uma sentença de condenação ou absolvição é necessário julgamento (cf. Mt 18.15-17; Lc 17.3; 1Co 5.1-6.3; 11.28; 2Co 13.5; Gl 6.1; 2Ts 3.6-15; 1Tm 1.20; 5.19,20; Tt 3.9-11; Hb 4.2; 2Pe 1.5-10).
Secularmente, o magistrado civil desempenha o papel da disciplina e julgamento na sociedade. Em Romanos 13, Paulo os descreve como autoridades e ministros de Deus.[2] “Lembre-se de que Deus mesmo é um Juiz e, numa escala menor, ele tenciona que outros também julguem. Ele deu ao Estado a responsabilidade de julgar (Rm 13.1-7)”.[3]
Na teologia bíblica, “julgar” é um dos atributos comunicáveis de Deus, isto é, uma qualidade divina que o Senhor compartilhou com o ser humano também. Todos os juízos de Deus são retos. O homem, como imagem e semelhança dele, jamais deveria ser diferente em qualquer situação de julgamento. “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”, disse Jesus (Jo 7.24).



[1] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 2018, p. 640.
[2] Consulte João Calvino, Institutas IV, xx, 1-32; A Confissão de Fé de Westminster XXIII, i-iv.
[3] Mark Dever, Nove Marcas de uma Igreja Saudável. São José dos Campos: Fiel, 2007, p. 186.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Quem já está condenado?

Por Josivaldo de França Pereira

O evangelista João relata que Jesus não veio ao mundo para julgar, mas para salvar o perdido: "Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (Jo 3.17). Cristo voltará, e aí não será para salvação. Imagine o quanto Jesus teve de aguentar das pessoas, moralmente falando, pelo fato de não julgar durante seu ministério terreno. O que não quer dizer que ele nunca tenha emitido juízo em relação a alguém.
Os Evangelhos ensinam que nosso Senhor julgou diversas pessoas e cidades inteiras. Contudo, o Mestre amado jamais proferiu juízo imediato de condenação eterna a quem quer que fosse (Lc 9.51-56). Definitivamente ele não veio para isso. Ele veio para salvar, não para condenar. “Salvação, no sentido mais completo do termo (livramento não apenas da punição, mas do próprio pecado, e concessão da vida eterna), era o que Deus tinha reservado para o mundo ao qual enviou seu Filho. Não era condenação, mas salvação”.[1]
No entanto, certo tipo de juízo ocorre na hora, em tempo real, não feito por Jesus Cristo, por assim dizer: "Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus" (Jo 3.18). Um autojuízo doloso e antecipado surge quando alguém recusa a graça de Deus em Cristo. É óbvio que João não está falando de uma pessoa que rejeita Jesus agora, mas depois se arrepende de seus pecados e se volta para ele pela fé. Quem já está julgado são aqueles que insistem na sua pecaminosidade e rebeldia contra Deus (cf. Mt 11.20-24).
De acordo com João 3.18 ninguém precisa aguardar o Último Dia para receber sua sentença. Certamente, naquele grande dia algo muito importante acontecerá: o veredito público (cf. Jo 5.25-29). Porém, a decisão em si, a qual é base para esse veredito, já foi tomada muito tempo antes.
Quem recebeu a Cristo como seu Senhor e Salvador não é julgado, isto é, nenhuma sentença de condenação será pronunciada contra ele. Mesmo agora ele está sem culpa aos olhos de Deus (cf. Rm 8.1). A Bíblia diz que os filhos de Deus também comparecerão perante o tribunal de Cristo, porém, nesse caso o tribunal não será condenatório (Rm 14.10; 2Co 5.10; 2Tm 4.8; cf. Mt 25.31-34).[2]
Por outro lado, quem despreza a Jesus, não crendo nele como o unigênito Filho de Deus nem confiando somente nele para a vida eterna, não terá de esperar o Juízo Final, como se o veredito fosse adiado até este momento. Por sua incredulidade obstinada e impenitente tal pessoa já está condenada, e assim permanece, conforme João 3.36: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”.[3]
“O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3.19). Esse versículo define e retrata a natureza e essência do julgamento. De acordo com Packer, o que João quer dizer exatamente é isto:
O ato decisivo de juízo sobre os perdidos é o julgamento que eles atraem sobre si mesmos, ao rejeitar a luz que se chega a eles em e através de Jesus Cristo. Em última análise, tudo o que Deus faz posteriormente em ação judicial para com o incrédulo, seja nesta vida ou além dela, é para mostrar a ele e levá-lo a receber a plenitude das implicações da escolha que fez.[4]




[1] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: João. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 167.
[2] Rev. Álvaro Reis, O Tribunal de Cristo. 2ª ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Edições Catedral/Casa Editora Presbiteriana, 1990. O livreto todo é excelente.
[3] Cf. Hendriksen, p. 167.
[4] J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 142.