quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Um homem mui sagaz

Josivaldo de França Pereira

 

Jonadabe era filho de Siméia, irmão de Davi; portanto, Jonadabe era sobrinho do rei. Algumas versões da Bíblia descrevem-no como homem "muito esperto", BLH; “muito astuto", NVI; “mui sagaz", ARA, ARC (2Sm 13.3; cf. Gn 3.1).

O termo hebraico usado para "esperto", “astuto” ou “sagaz" em 2Samuel 13.3 é hakam, literalmente “sábio”. Segundo Joyce Baldwin, “o contexto determina a exata nuança da palavra, e aqui está faltando visivelmente seu sentido ético costumeiro. Ele era ‘sábio’ no sentido de que sabia o que queria e como obtê-lo”.[1]

Jonadabe foi um sábio do mal porque era mau caráter; um traiçoeiro impostor. Bem diferente de outro Jonadabe, filho de Recabe, zeloso adorador de Yahweh que ajudou Jeú a suprimir o culto a Baal (2Rs 10.15-28) e muito respeitado entre os recabitas por sua fidelidade a Deus (Jr 35). 

Quanto ao sobrinho do rei Davi, foi ele quem aconselhou seu primo e amigo Amnom, filho de Davi, a cometer um incesto contra Tamar (por quem Amnom estava enamorado), irmã de Absalão, seus irmãos por parte de pai (2Sm 13.1-5).

As Escrituras não expressam que Jonadabe instruiu Amnon a violentar sua irmã, mas está subentendido na cláusula "sendo ela virgem, parecia-lhe [a Amnom] impossível fazer-lhe cousa alguma" (2Sm 13.2) e na sequência dos versos 5 a 14 de 2Samuel 13, ou seja, até o versículo 14 vemos a mente de Jonadabe; nos versos 15 a 17 a de Amnom.

Segue-se um desastre familiar atrás do outro como num efeito cascata. Jonadabe aconselha Amnom; Amnon abusa da própria irmã; Absalão arma uma emboscada e mata Amnom; Davi persegue Absalão; Absalão foge para outro país com medo do pai (2Sm 13). 

Três anos depois Absalão retorna a Jerusalém, é perdoado pelo rei, se rebela e persegue Davi (2Sm 14 e 15). As tragédias familiares se tornaram pessoais e políticas, iniciadas a partir de 2Samuel 11.

Quando Amnom foi assassinado, a notícia que trouxeram a Davi é que todos os filhos do rei haviam sido mortos por Absalão numa festa organizada por este, dois anos após o ocorrido com Tamar (2Sm 13.23-30). 

Jonadabe se apressa em dizer ao tio que apenas Amnom morreu, sendo sua morte "anunciada" por conta do que o primo fez (2Sm 13.31-33). O fato de saber do assassinato de Amnom parece indicar cumplicidade nele, embora fosse seu amigo confesso (cf. 2Sm 13.3,4).[2]

Com certeza a informação de que só Amnom tinha sido morto deixou Davi mais aliviado, porém, não diminuiu de modo nenhum a sagacidade de Jonadabe; ao contrário, visto que é próprio das pessoas maliciosamente astutas a dissimulação.

Olha a cara-de-pau de Jonadabe em 2Samuel 13.35: “Então, disse Jonadabe ao rei: Eis aí vêm os filhos do rei; segundo a palavra de teu servo, assim sucedeu". Você conhece alguém assim? Você já foi assim? O traíra Jonadabe se comporta como quem não cometera delito algum nessa história toda.

A Bíblia não relata como foram os últimos dias de Jonadabe. É quase certo que ele teve de conviver com o peso na consciência de um conselho infeliz, macabro e diabólico. 

Amnom morreu sem revelar o nome de quem idealizou o incesto que culminou na morte dele mesmo. Contudo, nada passou despercebido ao autor sagrado, divinamente inspirado pelo Espírito Santo (cf. Lc 12.2; Rm 15.4; 2Pe 1.20,21).

O sagaz Jonadabe se safou de ser morto por Davi ou Absalão, mas sem dúvida acertou suas contas com Deus!



[1] Joyce G. Baldwin, 1e 2Samuel: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 279.

[2] Consulte M. A. MacLeod, Jonadabe. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 711. 

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